Jabaquara, Jardim Oriental, Rua Matuim

Em 1952 ou 1953, mudamos para o Jabaquara, Jardim Oriental, Rua Matuim. Papai estava firme em seu emprego na CMTC e, diante do fato de que meu irmão mais velho já estava com idade escolar, alugou aquela casa, que foi, ao longo de nossas vidas, a casa mais bonita que moramos. Vocês podem imaginar a nossa alegria e, por que não?, a nossa felicidade. O terreno era menor que o da Vila Santa Catarina, mas a casa tinha uma varanda envidraçada, pintada de branco, aliás, as portas e janelas eram brancas também e, até hoje, sou vidrado em portas e janelas brancas. A casa tinha uma sala, um pequenino corredor que dava para os três quartos, para o banheiro e terminava na cozinha com azulejos… brancos. Tínhamos água da rua e o chuveiro era elétrico.

Papai vendeu a pequenina e inacabada casa da Vila Santa Catarina, não sei, nem me perguntem, por quanto. Só sei que ele comprou um gramofone e muitos discos 78 rotação: Dalva de Oliveira, Francisco Alves, Luis Gonzaga, e outros. Tinha jazz também, Ella Fitzgerald, Louis Armstrong. Um rádio elétrico. Um fogão a gás, uma máquina de costurar Leonam, não elétrica, e uma bicicleta. Mamãe tinha brilhos nos seus olhos negros; agora a comida saía mais rápido, não precisava esquentar água para os nosso banhos, podia ouvir o rádio com mais tempo. Ha!, as novelas da rádio São Paulo. Às tardes ouvia-se o barulho da Leonam, era mamãe fazendo roupas para nós. Há! O brilho nos olhos de mamãe!

Tínhamos vizinhos, dos dois lados da casa. Em frente não, era um terreno enorme, murado, praticamente era toda a extensão da Rua Matuim, pertencia ao Sr. Abrão, dono de, praticamente, todo o Jardim Oriental, inclusive da casa que morávamos. Perto, muito perto, havia a padaria do Sr. Ernesto e seu filho Armando. Gente boa! Quantos assados e pudins de pão mamãe não assou lá na Padaria, e sempre com o consentimento do bondoso Sr. Ernesto. Não preciso nem falar dos pães e doces gostosos que a gente comprava lá. Fazíamos nossas compras no Armazém de Secos e Molhados do Sr. Salvador; Dona Inez era a mulher dele e eles tinham três filhos: a Deise, o Bebeto e outro, não lembro o nome dele. Comprávamos na base da caderneta, mas eles eram muito estranhos e fechados. Diferentes do Sr. Ernesto, um português alegre e comunicativo. Havia também a Farmácia do Sr. Alvaro e dona Josefa e, uma coincidência, eles também tinham cinco filhos, todos homens, como em casa, de modo que os filhos deles eram nosso amigos de brincadeira. Havia as meninas que moravam na Jurupari.

Tínhamos o nosso personagem lendário, atávico, era a Dona Maria Malvione. Era de família de circenses e uma mulher à frente de seu tempo, esclarecida sobre qualquer assunto. Voluntária, organizava, em algumas casas do bairro, pequenas salas de aula, onde, sem cobrar um tostão, dava aulas para quem quisesse. Eu mesmo frequentei muito tempo estas aulas, até mesmo antes de entrar para o Grupo Escolar. Sim, posso dizer que a Dona Maria Malvione foi a minha primeira professora. Tinha um filho, o China e, dentre muitos sobrinhos, o Antonio… Dona Maria Malvione foi grande amiga da minha mãe e, quando fomos embora, as duas choraram profundamente.

Brincávamos muito no grande eucaliptal que havia ao longo da Rua Barrania e, além das brincadeiras de rua, aos domingos íamos muito ao cinema, nas matinês do Cine Maringá ou na casa paroquial da Igreja N. S. das Graças (Cidade Vargas). Íamos a pé, na maior parte das vezes, subindo a Jurupari até a Eng. George Corbisier, onde, perto da Farmácia do Sr. Percy, havia uma pastelaria que vendia aqueles sorvetes de máquina, uma novidade na época. Ou então, quando estávamos em cima da hora, pegávamos a Rua Apacê e ganhávamos um tempão. Na volta do Maringá, vínhamos pela Armando de Arruda Pinheiro, para ver as casas bonitas daquela região.

Quando as folgas de papai caíam num sábado, íamos, a família toda, nalgum cinema mais distante: Cine Nilo (Arena Sangrenta), Cine Estrela (Marcelino, Pão e Vinho), Cine Cruzeiro, e, até mesmo, o Cine Rivoli (O Cântico do Rouxinol – Donde Estará mi Vida – Joselito – horrível!).

Muitas vezes, quando podiam, papai e mamãe, somente eles, iam ao cinema, sem nós. Eles assistiram a muitos filmes: Matar ou Morrer – A Árvore dos Enforcados – O Cangaceiro – alguns Cantinflas, Jerry Lewis e Dean Martin, fato que causava nela um prazer enorme em viver, via-se que seus olhos faiscavam quando resumia os filmes para as vizinhas, quando falava dos cinemas do centro. Minha mãe revelou-se uma mulher urbana, gostava e adaptou-se bem ao fogão a gás, ao rádio elétrico, ao gramofone, sentia falta do liquidificador, da televisão (recém lançados e, por isso mesmo, caríssimos), da geladeira, do conforto que os cinemas da cidade ofereciam. Ela começou a viver uma vida efusiva!

Um dos fatos que mais marcara aqueles anos foi o agravamento da epidemia de poliomielite. Muitas crianças, pré e adolescentes, que brincavam conosco, foram contaminadas por este mal. Posso citar uma das meninas que morava na Jurupari. De repente ela sumiu e reapareceu, tempos depois, usando aquela horrorosa aparelhagem e botas especiais. Quando a vimos, nós, meninos e meninas, a emoção nos emudeceu. E o Antonio, sobrinho da dona Maria Malvione, também contraiu a doença. Ele que era tão alegre, saltitante. Antonio, Antonio! Tenho a impressão que começou aí a vida atribulada e triste que você teve. Mas, você, Antonio (pensou que) resolveu a vida à sua maneira. Uma tragédia!

Em 1955, entrei no primário, no G. E. Dr. Angelo Mendes de Almeida. Lembro-me bem da Dona Maria Augusta, uma professora de ar severo com seus óculos de lentes grossas! Em 1957 fui transferido para o G. E. Almirante Barroso, na Avenida Jabaquara. Minhas professoras, inesquecíveis, Dona Benedita Catão e Dona Iris, uma descendente de japoneses, muito delicada. Em 1958 tirei meu diploma do Grupo Escolar.

No início de 1959, papai saiu da CMTC. Não sei o que aconteceu, se ele foi mandado embora, fez acordo ou pediu demissão. Fico com a primeira hipótese, pois a CMTC, empresa estatal e séria, não se prestaria a fazer acordo com funcionário, e papai não seria louco de pedir demissão. Alguma coisa errada aconteceu. Não sei e nunca ficarei sabendo a verdade daqueles dias!

Mudamos para o Parque Edu Chaves, zona norte da cidade. Deixamos a casa gostosa e mudamos para uma casa simples que papai comprara e depois, por não conseguir pagar as prestações, a devolvera. Ele tentou a sorte como motorista de praça num carro alugado. Não deu certo. Por fim, voltou aos ônibus, trabalhando na Viação Brasiluso, uma empresa particular.

Naquela casa da Rua Matuim também ficou o brilho do olhar de mamãe. Notei que uma tristeza enorme tomou conta do seu ser, motivada pela preocupação com o futuro, dentre outras coisas, algumas posso imaginar, outras jamais ficarei sabendo, ficaram com ela. Até a Leonam parou, ficou quieta e empoeirada em algum canto daquela casa, até ser vendida por um valor qualquer.

Mamãe morreu em 1977, aos 56 anos de idade, sem nunca recuperar aquele viço, aquela alegria de viver que estampava na sua face. Não sei se ela partilhou com alguém os outros motivos que sombrearam, que entristeceram o seu olhar. Só sei que ela experimentaria outros dissabores na vida causados por papai, pelos filhos e… por mim.

Mamãe! Você morreu numa época em que o egoísmo tomou conta de mim. Hoje, peço perdão a você e não tenho certeza do seu perdão! Não sei o que mais me faz falta, se a sua presença ou a incerteza do seu perdão. Você não teve a mínima chance de recuperar aquele olhar tão presente e marcante naqueles anos vividos no Jabaquara – Jardim Oriental – Rua Matuim.

“Hoje é sábado, amanhã é domingo
Neste momento, todos os maridos
Funcionam regularmente
Todas as mulheres estão atentas, porque
Hoje é sábado.”

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