Um dia de presente

Malas prontas, despedidas. Meu último dia de férias em SãoPaulo, meu pai à porta me acenando. Lágrimas que não deixo que ele veja. O carro me levando ao Aeroporto Internacional de Guarulhos e o check in é feito enquanto o amigo da família me espera no saguão. Mais despedidas e, então, estou só, andando por corredores infindáveis que me levam mais longe de São Paulo a cada passo, do burburinho da minha cidade, das bancas de jornais ao sol, dos trens do metrô que cortam a cidade apinhados de gente, da gritaria dos camelôs no centro, das montanhas ao longe, das palmeiras acenando.

Chego à sala de embarque, onde já muitas pessoas esperam avião da Alitalia e ali começamos a fazer amizades. Conheci a Maria, a Cleia, vários jovens viajando para o exterior pela primeira vez, para quem só teria um conselho se fosse pedido: Viaje, mas volte para a sua terra. Não fique por lá…

Horas se passam, vamos comer alguma coisa na lanchonete, peço o último guaraná, choro abertamente quando a lata termina, ao lado das novas amigas, que não entendem, não entendem… afinal, elas se vão por quinze dias, um mês….

Finalmente, vem o anúncio que a companhia aérea não irá fazer o voo esta noite, iremos todos para um hotel. As malas já estão sendo tiradas do avião, deveremos fazer o check in novamente amanhã à tarde. Todos reclamam, vão processar a companhia, prometem nunca mais viajar por esta linha aérea. Eu, no entanto, crio alma nova: mais uma noite no Brasil, mais uma noite embaixo do céu de São Paulo.

Confusão impossível de descrever até perto da meia noite, quando chegamos ao hotel, arrastando malas, arrastando a nós mesmos para o restaurante iluminado onde finalmente vamos jantar. A estas alturas, o grupo de viajantes formou um elo entre si. Parece que nos conhecemos por anos. Virou convescote, virou jantar entre amigos com muita risada e conversa fiada. Já se sabe o nome da maioria, já se divide o compartilhamento dos quartos. Tiram-se fotos de grupos sorrindo, embora caindo de cansaço.

Compartilho um quarto com a Maria, conversamos até às 3 da manhã.

Oito horas, o grupo já chega para o café. Uns acenam para os outros de longe, juntam-se mesas, o convescote continua. Parece até que esquecemos o motivo de estarmos no hotel, o avião que nos espera na pista às 3 da tarde. E ainda temos um almoço no hotel antes de sairmos! Planejo tomar mais guaraná…

Com tempo livre, resolvo sair do hotel, mas não muito longe, como nos foi pedido pela companhia aérea. Saio sózinha, para curtir meu dia extra, meu dia de bônus, meu dia de presente em São Paulo. Eu, que já deveria estar sobrevoando o continente europeu, ainda estou com o pé no chão do meu país, pisando as calçadas ensolaradas, vestindo uma camiseta, um shorts e sandálias havaianas, meu uniforme preferido.

Ando à toa, telefono do orelhão para o meu pai, muito surpreso de ouvir a minha voz ainda do Brasil, aí vou a um supermercado onde compro ainda mais alguns sabonetes Phebo (trouxe uns cinquenta). Atravesso uma pracinha cheia de árvores floridas, demoro olhando as flores em tons de rosa e lilás, converso com uma família carregando uma criança no colo, ando pelo bairro todo, entrando em lojinhas e padarias, sentindo o cheiro do pão novo, me despedindo.

As pessoas em volta continuam no seu dia a dia. Chegarão em casa com as sacolas de compras, tomarão um café com a família e eu trocaria de lugar com qualquer um deles. Eu, devo voar. Devo sobrevoar o mar na escuridão e emergir da noite onde São Paulo não existe. Onde eu não existo.

Mas por algumas horas roubadas andei a esmo coletando pétalas do chão.

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