Quando nasci em 1948, morávamos perto da Praça Duque de Caxias, mas logo mudamos pra Rua Aureliano Leal, 44ª (eu achava estranho essa numeração, porque havia um n°44 já), travessa da Avenida Nova Cantareira, onde meu pai havia construído duas casas térreas, dentre as quais uma ele vendeu. Brincava na rua que era de terra ainda, quando olhava em direção da Água Fria, me lembro que era um morro descampado, e nunca fui para aquelas imediações por eu ser pequeno, então não podia sair de frente de casa.
Após mais ou menos uns três anos mudamos de volta para o centro da cidade, nas imediações da Avenida Higienópolis, e meu pai alugou a casa.
Mas a melhor coisa que aconteceu foi a volta pra Santana na mesma casa, e já com meus 15 anos. Até hoje continuo morando perto de Santana. Me recordo quando meu pai queria me ensinar a dirigir, ele possuía um carrinho inglês (Jowett Javelin). Meus primeiros aprendizados foram na casa da minha vó, que ficava na Ponte Pequena, Rua Rodolfo Miranda, em frente à praça Armênia, por ter uma garagem tipo um corredor longo, então eu ficava indo com o carro pra frente e pra trás.
Já meio que tarimbado na coisa, meu pai resolveu me deixar dirigir nas imediações de casa, então descia a Aureliano, seguindo pelas ruas adjacentes, Altinópolis, Cp. Alberto Mendes, Casa Forte etc., que na época pareciam uma cidadezinha de interior. Eu tinha essas aulas de volante toda semana, pra mim era o máximo, um cara de 15 anos dirigindo pra cima e pra baixo, deixando os outros meninos que viam com a maior inveja!
Mas a coisa não durou muito tempo. Minha mãe comprou um fusquinha 1954 na época, eu sempre pedia a ela pra deixar dar umas voltinhas pelos quarteirões, mas um belo dia eu e um amigo resolvemos sair da rotina, não me lembro como, mas fomos parar lá pros lados do Jardim São Bento, aí a coisa melou, apareceu polícia, pediram os documentos e carteira de habilitação, eu tremia na base, já viram o bode que deu! Só sei que meus pais resolveram a questão, naquela época conversavam dando explicações aos policiais, dizendo que eu pegava as chaves e saía escondido, e acho que não era uma coisa muito grave naquele tempo, como falavam; coisa de moleque.
Bem, após o fato só tirava o carro da garagem pra minha mãe, por ser um longo corredor.
Mas de vez em quando havia um ou outro amigo que pegava o carro do pai, e a gente saía pelas imediações. Me recordo de um em especial, o Batista (o pai era proprietário da padaria e restaurante Aviação, que ficava na Voluntários da Pátria, quase esquina da Gal. Pedro Leon Schneider, e a gente ia lá pra filar uns doces de vez em quando), que morava na Leôncio de Magalhães, pois o pai possuía um Chevrolet 1950 que ele sempre pegava para dar as voltas pelo bairro com os amigos. Certa vez eu estava dirigindo, fui fazer uma manobra na Rua Altinópolis, conforme estercei o volante alguma coisa bateu no carro do lado da porta, pra minha surpresa era uma lambreta, fiquei apavorado pensando que tivesse ferido o condutor, mas não passou de um grande susto para ambos. Depois desta também, eu evitava dirigir seu carro.
Uma coisa que mudou a minha rotina naquela idade foi numa tarde calma, quando voltava da aula (estudava no Neo Latino, Rua Altinópolis, fazia o ginasial) após o almoço, costumava ver tv, mas começou a aparecer um cara com uma moto pequena e o escapamento aberto fazendo a maior barulheira na rua, tirando o silêncio que era peculiar. Resolvi então sair e ver, conclusão, acabei conhecendo um dos melhores amigos da minha época, o Luis, e também aprendi a andar de motocicleta e a doença pegou. Daí em diante possuí mais de vinte motocicletas, inclusive até hoje ando de moto todos os dias, indo a vários lugares, é o meu meio de transporte, pois não tenho carro, quando preciso, às vezes uso o dos filhos.
Na época enchi o meu pai pra me comprar uma, até que ele fez minha vontade. Lembro-me bem, foi comprada no Mappin. A primeira coisa que fiz foi abrir o escapamento, então saíamos, cada um em sua moto, para aterrorizar a vizinhança com a barulheira, acho que ficamos bem conhecidos por todos nas imediações da Água Fria, Jardim S. Paulo, Tucuruvi, hoje penso que muitas pessoas ficavam com raiva pelo incômodo que causava. Enfim, para nós era pura diversão.
Muitas lembranças mesmo da adolescência e juventude, que passei no Alto de Santana.
e-mail do autor: [email protected]