O policial parteiro

É comum a gente falar das parteiras que nas décadas de 40-50 eram chamadas a fazer partos aqui mesmo na cidade de São Paulo, coisa que era comum em muitas cidades do interior, muitas vezes por falta de uma maternidade. <br><br>Os anos se passaram e as maternidades foram sendo construídas e a participação das parteiras foi diminuindo a cada dia que passava. É bem verdade que ainda temos notícias de que existem mulheres que praticam "partos" criminosos, ou seja, fazem abortos, e quem sabe de uma dessas mulheres, tem mais é que denunciar à polícia.<br><br>Mas se ainda tiver alguma parteira que faz partos de forma correta num caso de necessidade, nada de mais, merece até ser elogiada, quem sabe motivo de uma reportagem, mas o que vemos, e muito, são trabalhos de parteiros.<br><br>Sim, homens fazendo partos, e se tem notícia de que foram muitos partos realizados por homens. Esses homens são policiais da gloriosa polícia militar de São Paulo. Quando isso acontece é motivo de reportagem de televisão ou jornais e revistas. E é possível ver a alegria, a emoção dos policiais, no sucesso de seus trabalhos. Muitos policiais que fazem o parto são convidados, por parte dos pais das crianças, para padrinhos, e alguma criança é batizada com o nome do policial parteiro. Esses são os policiais que se contrapõem aos "colegas" que denigrem a farda cometendo erros, com a participação em ações danosas à sociedade.<br><br>O policial David dos Santos foi motivo de uma reportagem no jornal O Estado de São Paulo (jornalista Fernanda Aranha) recentemente, como sendo um dos parteiros da polícia militar de São Paulo.<br><br>Acostumado a atender chamados de violência no bairro em que mora e trabalha, Parelheiros, no 27º batalhão da polícia militar, o soldado David deparou-se com uma ocorrência totalmente oposta aos chamados normais.<br><br>Era uma chamada para uma ocorrência na favela Jardim Lucia, encravada no fim do Grajaú, zona Sul da cidade de São Paulo. Chegando lá, viu que uma mulher estava em trabalho de parto, dentro de um barraco de tão difícil acesso que jamais uma ambulância do SAMU, ou dos bombeiros, chegaria até lá.<br><br>O soldado Davi fez o parto de uma menina cabeluda com uns três quilos, assim, com a própria mão, aquela menina mexeu com sua cabeça. Ele que já era pai.<br><br>Já tinha vontade de fazer trabalho voluntário, e depois de essa ocorrência a vontade ficou mais perto depois daquele parto.<br><br>Mas o trabalho do policial David dos Santos não ficou só aí, numa possível ocorrência de fazer mais um parto. Começou a fazer palestras sobre os perigos das drogas, nas horas vagas, mas não era bem isso que almejava. Ele então decidiu dar uma reviravolta na sua vida.<br><br>Em sua mente veio algo que parecia improvável. Assim, contrariou a todos que batiam o pé de que faculdade não era o local para um policial militar.<br><br>Fez vestibular e nem acreditou quando viu seu nome na lista de aprovados. Prestou Letras.<br><br>No ano passado ganhou uma bolsa de estudos de um programa estadual. Em contrapartida teria que prestar serviços em uma maternidade de Interlagos, também na zona sul, sua "terra natal", "Aí juntou a fome com a vontade de comer".<br><br>“Aquele parto que fiz foi a coisa mais marcante da minha vida e agora eu era um voluntário em uma maternidade”. Eram para ser apenas duas horas, mas David cumpre bem mais: o quanto dá, no limite para não atrapalhar na polícia e nem na faculdade.<br><br>Acorda às cinco horas da madrugada, chega na polícia às seis, trabalha até as quinze horas, das 15h30min às 19h00 fica no hospital Interlagos. Chega um pouco atrasado à faculdade, onde permanece até as 22h30min. Dorme à uma hora da madrugada e às cinco começa tudo de novo.<br><br>Desde o início do ano David assumiu a biblioteca da maternidade, leva livros para as pessoas internadas e lê contos de fadas para as futuras mamães que estão internadas na UTI.<br><br>Mostra a importância da leitura para as pessoas que nunca nem souberam o que é ter um livro em mãos. Mas o que elas gostam mesmo é de contos de fada, mas tem vezes que ele arrisca levar Machado de Assis e Graciliano Ramos (seus prediletos).<br><br>David dos Santos, aos 37 anos, está perto de conseguir o primeiro diploma universitário de todas as gerações de sua família. Ainda sonha em ser professor.<br><br>Bom. Já temos um policial, um parteiro, um universitário e futuramente um professor, tudo isso encarnado num único policial militar da gloriosa polícia militar de São Paulo. E eu, com muito orgulho, digo: Viva o bom policial.<br><br>e-mail: [email protected]