(Rua do Gasômetro – lll)
Na Rua do Gasômetro, em frente ao prédio em que eu moro, na esquina da Rua do Lucas, tem um bar (existe até hoje) que na época, década de 60, é adquirido por um casal de italianos, (napolitanos), Piero e Sofia (nomes fictícios), que logram boa clientela pelo ótimo atendimento, e atraentes apelos dos pratos e, também, na atração exercida pela extraordinária beleza física de Sofia. Uma verdadeira deusa, digna representante da beleza italiana a mexer com o coração e disposição de bom comportamento de todos os que frequentam o bar, inclusive eu.
A vida segue bem, movimento sempre melhorado, obriga o casal à contratação de um balconista, pra melhor atender a demanda da crescente clientela. Por desconhecer hábitos, costumes e boa parcela de critérios nas novas contratações, Piero aceita o primeiro que se apresenta, atendendo a um pequeno cartaz colocado no vidro protetor de salgados. Salustiano (fictício) é um homem de, mais ou menos, trinta anos, pequena estatura, com forte pronúncia nordestina, meio morrudo que logo se nota, não está apto a exercer a tarefa. No fim de dois ou três meses, a paciência do casal termina. Dizem a ele que iria trabalhar até o fim do dia (ou semana, não lembro), está despedido.
Dia acertado, contas feitas, o balconista diz não estar certa a conta, pois exige que seus direitos trabalhistas sejam respeitados. Piero faz ver a ele que está lhe pagando os dias de trabalho, sem nenhum acréscimo e muito menos descontos. Salustiano exige parcelas correspondentes ao 13º, férias, isso tudo sem nem ao menos estar registrado, o período é de experiência. Piero não aceita essa exigência, declarando estar sendo correto pagar somente os dias trabalhados e está acabado.
O decorrer do fato que conto, a seguir, é de minha inspiração, dedução a que chego diante do que resulta.
Salustiano, preso a um hediondo estado de auto comiseração, mesclado com fortíssimo complexo de inferioridade, ao comparar seu visual com o do Piero, belo e formoso exemplo de italiano (um Mastroianni do Braz, pode-se dizer…) e dono daquela flor de formosura e beleza que é a Sofia, não titubeia, saca de uma bainha que traz no bolso interno do paletó, uma "peixeira", avança pra cima do Piero. No preciso instante Sofia, que assiste à discussão, vê a intenção do balconista, se põe à frente do marido, supondo, talvez, que Salustiano não fará nada a ela.
Malograda percepção, a pobre Sofia confia demais na bondade humana. Salustiano, na voragem de seu ódio, cego de loucura, não deixa por menos, ali está o "carcamano filho da p…, querendo roubar o que me pertence, sou pobre, sozinho, ninguém me defende…", nesse delírio enfia a faca no peito daquela Diana grega interpretada e materializada por uma napolitana que, por um instante, vislumbra o terrível porvir de ficar sem seu grande amor, Piero.
A pontada é certeira, atravessa o coração daquela heroína sem, ao menos, contar com alguém que lhe socorra a tempo. Esvai-se em sangue e morre logo em seguida nos braços do desafortunado Piero. Até hoje, essa incógnita heroína persiste em não abandonar as lembranças de quantos vieram tomar conhecimento do infortúnio. A dor que ela sente é violenta e forte, mas instantânea. A dor do Piero, muito pior, profunda, interminável e latejante por todo resto de vida que amargou, ou amarga ainda hoje, não sei. Volta pra Itália logo em seguida, nunca mais ouvi falar dele.
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