São Paulo antigo: Lauzane Paulista do meu tempo

Hoje o dia amanheceu chovendo. Esse impossível pardo, essa pré-saudade de uma coisa qualquer, que nem sequer foi boa, esse constante nunca mais, pingado do bico de um corvo invisível, esse vazio, essas negações todas, que a chuva miúda sabe pôr em torno de uma vida, esse irremediável cinzento pardo, de céu carrancudo sob a cidade, esse leque translúcido do limpador automático do para-brisa do automóvel, oscilando como pêndulo de relógio de cá para lá, de lá para cá, abrindo no cristal liso, todo arrepiado de bolinhas de água luminosas, enfeitadas com gotas de strass.

E nesse cenário no leque de vidro do carro foi-se pintando a paisagem do bairro de Lauzane Paulista. Rua Conselheiro Moreira de Barros. É uma rua comprida, curva, modesta, estreita, perfeita, que começa na Rua Voluntários da Pátria e termina para os lados da Vila Nova Cachoeirinha.

E o automóvel passou pela Praça Ricardo Whately, junto da antiga estação do trem da Cantareira, no bairro de Santa Terezinha, antes conhecida como a chácara dos padres. Um avanço a mais pela Moreira de Barros, numa bifurcação com a Rua Helena do Sacramento no Mandaqui, há uma paróquia da igreja de Santo Antonio do Lauzane Paulista, de construção antiga, modesta, pequena, discreta, no entorno de um largo amplo e arejado. É o padroeiro do bairro, uma homenagem, dos imigrantes europeus da família Savoi, de origem Suíça, dona daquelas terras, onde já vivia no bairro o casal Pedro Gabone, natural da França e sua esposa Francisca Boccaccio Gabone de origem italiana.

Havia ali, também outras famílias de imigrantes de origem italianas, portuguesas, que junto com os Gabones, os Bandini viviam de atividade agrícolas.

Hoje, fiz uma corrida ligeira, rente aos paredões dos muros de terrenos baldios, aos sobrados antigos da Rua Alfredo Ranieri; uma esquina dobrada à direita, na antiga estrada do Guacá; outra derrapada à esquerda e eis que me encontro no entorno do bairro, quase junto da Serra da Cantareira. Mas é aqui, neste côncavo do terreno, de ar puro e fresco onde se avista os serrados próximos, e eles se transfiguram da cor parda do fundo das tempestades, para um azul límpido e profundo dos rios e das montanhas próximas. É aqui, onde começa e acaba de repente o bairro de Lauzane Paulista.

Começa e acaba de repente. Porque é pequeno, pequenino, essa miniatura de Suíça paulistana; e são assim todas as Suíças possíveis. Concentração absoluta. Na rua sem calçamento todas as casas se parecem e confundem, sem fisionomia, iguais aos homens ali parados, de sweater branco, silenciosos, que ficam apoiados nas cercas de arame, olhando cansados para a rua, sem dizer nada. E vão chegando mulheres do trabalho, vestidas de avental branco, lenço branco em forma de toca, silenciosas e que ficam paradas, abanado os fogareiros de carvão nas portas da cozinha das casas.

O olho quase sempre vermelho dos candeeiros, o olho vermelho da fumaça dos cigarros nas bocas retorcidas, olhando distante, sob as cercas de arame farpado, estão olhando… Olhando o quê? Olhando nada. Na quietude brusca da rua, na planura absoluta das calçadas, todos os vultos crescem. Vão homens grandes, equilibrados, de pé na ponta de sua sombra. Vão mulheres altas, com manteaux pretos de gola de astrakan e pernas alvas, sobre o branco dos sapatos de tênis. Os pés são mais ligeiros do que o ar, andando no escorregadio barro molhado, na horizontal da planura. Em pé, no meio da rua estreita, os postes novinhos de cimento armado da Light, cruzam os braços sem fio, um pouco acanhados, diante daquelas luzes de petróleo, que os refletores estanhados tentam inutilmente animar.

Lauzane. Bairro de nome Suíço em São Paulo. E este silêncio estrangeiro, este silêncio que parece uma injuria, este silêncio indiferente, este silêncio que incomoda e confunde.

Acho que passou pela rua um bando de gansos vagarosos, gagos como aqueles gansos que os yankees nunca deixam de pôr em seus filmes. E neste dia de chuva, na imobilidade pálida da tarde, trouxe-me a mente o êxtase das florestas ásperas de árvores escuras, das geleiras eternas. E na solidão fria dos despenhadeiros, há o voo geométrico dos patos selvagem.

Acordo dessas lembranças, no meio do bairro de Lauzane Paulista. Agora é hora de voltar para o centro da cidade. Um gato preto e branco saiu de uma travessa de uma rua sem saída, e fica no portão de uma casa, olhando para mim, com enigma dos seus olhos verticais de opala e fósforo…

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