Estrada da Barragem, depois de Parelheiros e da Colônia

Existe um lugar no extremo sul de São Paulo que, creio eu, é praticamente desconhecido da maioria dos paulistanos. Não me admira, porque São Paulo é tão grande que parece se esquecer de pequenos lugares. Fica depois de Parelheiros e do bairro da Colônia, antiga Colônia Alemã.<br><br>Não sei se conseguirei descrever sentimentos sobre o lugar que façam as pessoas se apaixonarem. Não nasci lá, nem ali passei minha infância. Meu depoimento é recente, apenas uns vinte e cinco anos atrás. Não tenho aquelas grandes paixões do passado, porém quero registrar uma homenagem, a um lugar onde sou feliz.<br><br>O local é bem longe do centro de São Paulo, mas, não se esqueçam, é seu bairro, assim como os Jardins, Tatuapé, Vila Madalena, Grajaú, dentre outros.<br><br>Lá, naquele pequeno bairro, em minha memória "quase" recente, lembro da Padaria do Gorô e do mercadinho do Donizete. Depois de quase duas horas de caminho chegávamos à Colônia, e sempre tínhamos um café fresquinho, um papo agradável e o pão super quentinho. Na época, tudo por obra do Gorô e do João, seu irmão. Encomendávamos, por telefone, no mercadinho do Donizete, todos os produtos que precisávamos, ora pra ele, ora pro Cido, e, no final, sempre tínhamos o Marquinhos. Esse cuidado era mantido com todos. Tudo muito simples, sem nenhuma sofisticação.<br><br>O Gorô, hoje, trabalha em outro lugar e todos eles me causam grandes saudades. O Donizete, infelizmente, não é mais o dono do mercadinho, hoje alçado a supermercado. Contávamos com o Eliel, entusiasmado estudante de história, que, como poucos, conhecia um bom corte de carne. De toda sorte, todos eles passaram, como tudo passou…<br><br>Ainda bem que há comércios, cujos donos nos permitem, como sempre dizemos, nos sentir em casa, como o Marinho, dono de uma loja de materiais de construção, e o Akira, que tem uma loja de ração, sem falar na Russa, da farmácia, e alguns outros.<br><br>Sabemos que, aos poucos, as coisas vão mudando. Ainda bem que com menos rapidez do que na "cidade grande". As pessoas da comunidade sofrem inúmeras mazelas e o crescimento desordenado em nada contribui para o lugar. Os moradores, dentre outros problemas, têm dificuldades com o transporte urbano. Os ônibus são poucos e na maioria velhos. Atualmente, parece que a situação está começando a mudar. Não sei! Vejo dignidade nas pessoas, com as quais convivo, moradores antigos do bairro da Colônia/Barragem. Guardam valores muitas vezes esquecidos. Filhos, sobrinhos e netos, ainda, pedem a benção. E não pensem que não sejam antenados, desatualizados. Sabem preservar valores que passam de pai para filho.<br><br>Quanto ao lugar, é um santuário ecológico que integra uma área de preservação ambiental. Com muito orgulho, o local é preservado e mantido intacto. A fauna e a flora são magníficas. As árvores ficam cobertas de bromélias, das mais variadas espécies e cores. Quando chega agosto/setembro, os ipês cobrem-se de rosa, roxo e ouro. Em outubro, as chuvas de ouro começam a disputar lugar com as bromélias. As íris, brancas e roxas, se espalham "como pragas" e "que belas pragas"! As hortênsias se vestem de um azul quase lilás. Os agapantos, brancos e azuis, surgem nessa época, colorindo os jardins. Em janeiro e fevereiro os manacás da serra e as quaresmeiras enlouquecem, assim como as cássias. As helicônias convivem conosco o ano todo. Os esquilos fazem um fuzuê danado e os tucanos aparecem na época certinha, para abrilhantar os quintais, disputando com os bem-te-vis o mesmo alimento.<br><br>Por falar em bem-te-vis, são heróis que sabem defender sua prole dos gaviões, que, vez por outra, dão suas voltinhas por lá. É gratificante ver os sabiás, os ticos-ticos, as coleirinhas e as maritacas. Há micos, mas também algumas cobras, que sabem seu lugar, muito embora algumas se atrevam a dar algumas voltas indesejadas. À noite, as corujas nos olham com sapiência. Quero-queros nos espantam quando, sem querer, nos aproximamos de seus ninhos. É muito bom aguardar a chegada das andorinhas, que, sem pedir licença, chegam na primavera e passam o verão conosco, em nossos telhados. Dizem que tem onça, e posso garantir, sem ser pescadora, que já ouvi seu rugido, não tão longe. Adoramos todas as estações do ano, com suas particularidades. A bem da verdade, devo lembrar que, quando a meteorologia fala em chuvas esparsas, intermitentes e localizadas, pode contar que é por lá. No inverno, o frio é tão rigoroso que as lareiras não são meros adornos, mas utilidade doméstica.<br><br>Enfim, o lugar é lindo, um oásis em São Paulo e nossa grande tarefa é mantê-lo intocável. Nem se alegre quem imagina que estamos falando do "Caribe", ou de algum condomínio de alta classe ou mesmo uma ilha da fantasia. Todos são simples, apenas temos o paraíso. Não temos riquezas, sequer celulares, até por uma simples razão, "lá não pega". Não temos qualquer glamour que possa ser invejável ou querido. Convivemos com pessoas dignas e temos apenas em nosso favor a natureza, que nos brinda dia a dia.<br><br>Aqui nosso carinho a todos, em exceção.<br><br>Desculpem se o relato possa ser enfadonho, mas não podia deixar de escrever sobre esse lugar talvez sem a paixão da infância, capaz de envolver, mas com muito carinho.<br><br>e-mail da autora: [email protected]