Amarcord

Amarcord – (Io me raccordo). Inesquecível filme de Fellini, com tipos antológicos como professores. Quando penso nos que tive, faço sempre uma ligação com aqueles tipos fellinianos.

Eram outros tempos, ali o que contava era o ensino público. Escolas particulares eram menosprezadas. Bem, haviam ótimos colégios particulares, nem todas eram moleza, mas algumas delas sim, o que originava este boato.

Então se você queria ensino e disciplina rigorosos, nada como uma boa escola pública, de preferência com nome ilustre.

Frequentei uma destas, no interior. Na verdade, frequentei mais de uma, pois mudávamos seguidamente de cidade, como uma tribo de ciganos. Mas, em Campinas, estudava na mais tradicional, pela qual passaram muitos nomes históricos, daqueles que dão nomes às ruas.

Nas suas veneráveis escadarias, fotos com professores e formandos notáveis pendiam das paredes, em grandes quadros escuros. Era um espetáculo assustador, subir sob os olhares de censura daqueles vultos severos.

Mas aí tinha de enfrentar os professores reais, ainda mais rigorosos, ou pelo menos aparentavam isto. Tinham status e pôse de luminares do ensino, considerando-se infaliveis e omniscientes.
Eu me recordo:

– Sampaio, professor de português, implacável, incapaz de um sorriso. Cultor da nobiliarquia, só fazia chamada oral para alunos com nomes quatrocentões, pronunciando lentamente, como se saboreasse – "Augusto Frederico Novaes de Camargo Barros!" Se você fôsse um Zé das Couves, tinha boa chance de nunca ser chamado, o que não deixava de ser uma vantagem.

– Galvão, de latim, idoso, magro e meio gagá, com seus ternos sempre negros e colarinhos puídos. Era casado com uma hedionda professora de português, com quem tive de passar um ano, Mercedes. Galvão gastava seu latim, sem que ninguém lhe desse atenção, fato de que não se dava conta.

Uma única vez escapou à sua rigidez, contando uma piada, para espanto dos alunos – "vocês sabem a diferença entre um paulista e um paulistano?" Ninguém sabia. -" ora, um paulistano é um paulista com um nó no rabo!" Quiá,quiá,quiá! A classe caiu na risada. E Galvão,furioso – "silêncio,seus imbecís! Silêncio!"

Agora eu lamento o pobre Galvão, fôra hoje em dia tentaria ser o melhor aluno da classe! Ainda assim lembro o início de "De Bello Galico", de César: – Galia est omnia divisa in partes tres, primae Vercingetorix regnat…

– O violento Von Stuck, de educação física, que em seus maus dias fazia os alunos passarem por um "corredor polonês", levando pancadas da enorme "medicine ball" por todos os lados…

Nem tudo era essa dureza e mau humor. Havia Maria Helena, professora de geografia. Passeava sua beleza morena entre os alunos embevecidos, com os hormonios pipocando à flor da pele, um oásis naquele mundo de mestres carrancudos e enrugados.

Com a morte de meu pai, viemos para São Paulo. Aqui, no curso noturno no Roosevelt da R. Gabriel dos Santos, a pressão era bem menor. Ainda haviam alguns mestres durões e rabugentos, mas a maioria se solidarizava com os alunos, alguns já cansados da jornada diária de trabalho, tendo ainda de acordar cedo no dia seguinte.

Ainda assim, foi um ótimo curso. Sempre estudei melhor quando sentindo-me respeitado e tendo mais incentivo dos professores. E lembro-me agora com espanto da severidade e antipatia com que éramos tratados pelos antigos "luminares". Como é que podia? Hoje não dá para acrediar. Fellini que o responda.