Brás de muitas saudades…

Já vai longe, quase quarenta anos de ausência e saudades, em que eu, paulistano nato do Bixiga, deixei esta megalópole para viver em terras baianas, envenenado que fui por um amor nordestino. Aliás, dois amores. Um foi a baiana que me raptou. O outro, a danada da moqueca (vide "Trianon amor e moqueca"), e outras delícias da culinária nordestina.

Já escrevi algumas narrativas de meu bairro e alguns de seus personagens e, agora, atrevo-me a dissertar sobre um dos bairros mais populares da capital paulista, por sua gente e sua importância no desenvolvimento comercial e industrial em nosso estado.

Refiro-me ao Brás. Bairro de tradição ítalo-brasileira (alguns hispânicos e lusos, além de alguns poucos "gregos e troianos" também), que de há muito mostrou-nos a sua importância comercial e industrial, destacando-se visivelmente, do centro nervoso da capital.

Grandes indústrias de tecelagem, metalurgia, de transformações (moinhos de farinha, estamparias e o próprio gasômetro, dentre outros), contribuíram para o alavancamento da economia paulistana, com notável participação.

Minha participação no Brás deu-se quando estudava na Escola SENAI – Roberto Simonsen, onde tentei, sem sucesso, o curso de joalheiro. Deveria ter feito o de torneiro mecânico, mas faltou-me a ideia. Localizada nas esquinas das ruas Sampaio Moreira com a Monsenhor Andrade, o SENAI é uma escola espetacular. Até hoje me arrependo de não ter feito um curso profissionalizante à altura de meus conhecimentos (e olha que tinha vários por lá).

Por ser uma escola de cursos profissionalizantes, a escola está encravada no meio de um grande parque industrial, com vários seguimentos, e em minhas horas de folga (meu curso era integral, isto é, o dia todo) gostava de passear pelas redondezas e admirar o complexo que me cercava.

Eram fábricas e mais fábricas, com suas enormes edificações (algumas do grupo Matarazzo), e, entre elas, a linha ferroviária de Santos a Jundiaí, e o rio Tamanduateí, que exerciam uma espécie de fronteira, salvaguardando os limites fabris.

Das minhas andanças pelo bairro, era comum e costumeiro caminhar pelas ruas internas daquela região. Não raramente e quando a sede apertava, solicitava um pouco d'água às pessoas das casas que estivessem às suas portas, em geral, a italianada velha que, em seus "dolce fa niente", ficavam por ali ao sabor do tempo.

Ruas do Gasômetro, Assunção (ei, Laruccia, paisanno), do Lucas, Correia de Andrade, viaduto do Gasômetro, eram as muitas artérias que percorri.

Ali, no largo da igreja do Bom Jesus do Brás, onde havia a loja de moda masculina Rua Monteiro, era o ponto de minha descida do ônibus de nº 5 – Estações, da velha e saudosa CMTC, e, mais à frente, as porteiras do Brás que caracterizam muito bem a minha nostalgia. Ainda tenho na memória o som do impacto de quando elas se fechavam para passagem do trem (pláááác!!!).

Como sou muito eclético, por vezes desviava meu roteiro, agora para namorar os muitos ferros-velhos da Rua Piratininga, onde se podia encontrar peças dos mais variados modelos de automóveis das décadas de 20/30/40 e 50. Buick, Cadillac, Oldsmobile, Chevrolet, Ford e outros tantos europeus. Era a "meca" dos carros velhos.

Partilhando esse turismo urbano, as lojas de eletrodomésticos, pastelarias da Rangel Pestana e uma loja muito especial que foi a de Móveis Teperman, com seus produtos de requinte. Camas e guarda-roupas entalhados e trabalhados à mão por artesões da marcenaria. E o gosto foi tamanho que findei por trabalhar na fábrica instalada na Rua Marina Crespi, no bairro da Mooca.

Infelizmente não tive nenhum contato com personagens de maior expressão no Brás, mas todos com quem tive breve contato tornaram-se personagens ímpares. Cada um com a sua característica.

Ainda tenho muitas saudades do largo da Concórdia. Alcancei o que ainda restava do velho teatro que lá havia. Tinha uma bela arquitetura. Fiz compras no "Sindicato Baiano" que vendia (e vende) coisas e iguarias do nordeste. Adorava tomar média de café com leite (bem morena) e pãozinho com manteiga na estação do Norte. Era sem igual. Muitas vezes "charfundei" os pés nas enchentes do Tamanduateí em dias de tempestade. Em matéria de "toró", ninguém vencia São Paulo (parece que até hoje é assim).

Os bondes seguiam céleres em suas idas e vindas, ora apinhados de passageiros, ora com vagas a escolher.

Sim, havia um personagem dos bondes. Um negro de seus quarenta anos que, sempre quando tomava a condução, metia sua cabeça para fora da janela e ficava aos berros, causando confusão e amendrontando as pessoas com seus surtos psicóticos. Era um tal de "buaááá-buaáááá" que o infeliz fazia que a todos chamava a atenção. Pobre coitado.
Cresci. As porteiras já não mais existem. Em seu lugar, um viaduto. Os bondes foram extintos, a Teperman transferiu-se, as fábricas dos Matarazzo trocaram de mãos, outras simplesmente fecharam e foram transformadas em enormes depósitos, muitas delas guardando em suas prateleiras reminiscências do passado e poeiras do tempo que o tempo não leva.

Só me resta lembrar estas memórias, tomando um bom trago do "Biotônico Fontoura" (pena que já não seja na sua fórmula natural), imaginando como seria ter estudado no Romão Puiggari ou ter comprado um bom terno de casimira inglesa em alguma loja do ramo.

Brás. Como deve estar mudado, como muita coisa mudou em São Paulo. Mas a essência dos que lá permanecem já é indício positivo para todos aqueles que, como eu, são ávidos pelas histórias e fatos que marcaram época de nossa amada São Paulo.

Nota: À Modesto Laruccia, honorável cidadão e "braseirense" dos bons, a minha modesta homenagem, pois a história do Brás só deve ser contada por quem é do Brás. Honre-nos sempre com seu brilhantismo.

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