Rua Gaspar Soares

Foi lá, quando ainda era de terra batida, que numa tarde perdida eu e meu amigo Paulo ouvimos pela primeira vez num rádio a música "I Wanna hold your hand", de um tal de The Beatles, e deu no que deu. Queríamos ser como eles também. Nossa amiga Ione ganhava sempre do pai o LP mais recente que eles lançavam: Revolver, Ruber Soul, Help, que íamos ouvir na velha vitrolinha mono.<br><br>Tinha o futebol de rua, o jogo de tacos, as brincadeiras nos terrenos baldios. Os primeiros amores. A inauguração do Posto Novo Mundo, ao lado da padaria de mesmo nome, a banca de jornais do Dito, o colégio Cedom, o GES, o Albino Cesar. A escola Professor Máximo de Mora Santos, o Parque Domingos Luis. Os bailes com decoração da PUFF. O alfaiate, pai de nosso amigo Marquito, que ajustava nossas calças Lee. O frio que antigamente fazia em Santana. Saudade!<br><br>A turma da Gaspar que dominou o pedaço por dez anos de alegria e felicidades. O bairro foi crescendo. Asfaltaram a Gaspar, ou melhor, foi calçada com paralelepípedos, mas continuou calma e tranquila. Foi lá que um dia vi meu primeiro amor subindo a rua e também a primeira desilusão de amor. Foi lá que vi numa esquina a figura de meu pai pela última vez, e lá também o último Natal em família. Nas suas tardes infindas sonhei acordado com dias melhores. Lá também a diáspora e a separação da infância mudada em vida adulta e o entendimento perfeito da palavra saudade.<br><br>e-mail do autor: [email protected]