Entre o Brás e a Luz, sobre o Tamanduateí

A rua era escura, e, no piso irregular da calçada, árvores ofuscavam as poucas luzes de vapor de sódio, amareladas. O homem roto andava escorando-se de quando em quando, e a seu lado seguia lampeiro um cãozinho sem raça definida. Magrinhos, magrinhos. Dois andarilhos. Lá, em sua calha, corria o rio largo. Escuro.

Tudo isso se passava enquanto eu, dentro do trem parado, aguardando ordem de partida, olhava pra fora; as outras pessoas que compartilhavam o vagão, ansiosas por essa ordem que não vinha, pouco viam do que se passava lá fora, nada viam do que se passava dentro do trem.

E dentro do trem, quando voltei minha atenção, desligando-me da cena exterior, aconteciam coisas extremamente corriqueiras. A vida em seu estado mais puro! Pessoas fungavam, cochichavam, olhavam de lado, olhavam por baixo, ruminavam. Algumas mulheres chamavam a atenção, mas não estavam mulheres. Homens havia, mas era como se houvessem deixado a alma em casa. Crianças, estas sim, eram crianças. Num repente, rompendo a calmaria, algo inusitado aconteceu: um pequeno pássaro se estatelou contra o vidro da janela e foi cair lá em baixo, nos trilhos, lentamente. Um garotinho, que antigamente sorria, falou baixinho "ele morreu".

Ao primeiro sinal o trem partiu.

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