Não é Morumbi, é Itaim Bibi

Na época de 1987 trabalhava na Mooca, próximo à estação ferroviária na Borges de Figueiredo. Era o meu primeiro emprego, não estava acostumado a ficar preso dentro daquela empresa, adorava quando tinha uma oportunidade de ir para rua fazer entrega, já que se tratava de uma empresa (boca de porco) que produzia portas e janelas de alumínio, esquadrias em geral.

E me convidaram para participar daquela entrega, nossa, era tudo o que eu queria, isto era na quinta-feira, a nossa hora de almoço foi alterada em virtude de carregar o caminhão. Falei para o motorista, o seu Celso, “vá pelo caminho mais demorado, não tenha pressa”, ele me respondeu “mas vou mesmo, o motor é novo, apesar do caminhão ser do ano de 1966 Mercedes Benz”.

Depois das 13h00 horas o caminhão seguiu o seu destino, foi preciso fazer logo de cara uma parada, perguntei para os meus amigos que estavam na frente, legal o velho motorista é louco, ele falou para um motorista de um carro “eu te mato”, só que mostrou somente as balas, revólver ele não tinha.

Enjoei de ficar na caçamba deste caminhão, fui para a frente com eles, estávamos nas mansões do bairro do Morumbi, seu Celso andava em círculo dando várias voltas em um mesmo lugar, e dizia “agora eu vou sair”, e saía no mesmo lugar, foi riso demais, mas ele não ligava.

Em um dado momento ele pede informações, volta frustrado e nervoso, pois ninguém sabia lhe dizer onde ele queria chegar, a porta do caminhão não queria fechar, com muita insistência fechou, mas começou abrir a outra, daqui a pouco as duas estavam abertas, parecia a cena do filme do Mazzaropi “Sai da Frente”, mas ele chegou no local tão desejado e almejado, só que com um porém, lá era o escritório, não se descarregava nada ali, a não ser conferência de notas fiscais e nada mais.

Fomos para obra, confirmamos, era ali mesmo o local da entrega, só que não podia mais entregar, a hora já tinha passado, eram 18h30, bem escuro em virtude do frio que existia naquela época. Resumindo: teríamos que voltar com o caminhão de volta para a Mooca e retornar no dia seguinte. Quando ele perguntou para todos nós qual era o número do telefone da empresa que trabalhávamos, e todos disseram rindo “ninguém sabe”, ele indagou nervoso: “você, e você, você, quanto tempo tem de firma?”. Não tínhamos mais que quinze dias de serviço, e agora ele disse “o que faço?”, eu disse “seu Celso, o telefone está na nota”, “Ai, é mesmo”. Ele retornou dizendo “é o burro daquele Jonas, não é Morumbi, é Itaim Bibi!”.

No outro dia o Celso se perdeu de novo, chegou lá às 11h00 horas, aí trabalhamos muito, demais, sobe janela pelas escadas até chegar no 7º andar e portas, quando li uma frase que até hoje não esqueci: “Ser Pobre não é Vergonha, mas também não é motivo de Orgulho”. Após isto refleti, “vou estudar”.

E o seu Celso, na noite passada, quando foi guardar o caminhão, arrancou o portão. No dia seguinte toda hora ele dizia: “mas não é Morumbi, é Itaim Bibi”.

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