Suave balanço

A gente pode constatar. Por meio de jornais de arquivo ou de filmes (documentários). Nos anos 40, os ônibus do transporte coletivo paulistano eram, no geral, precários. Aquém da necessidade. Longas filas, veículos pequenos, bairros sem condução. Ônibus que transportavam só uns trinta passageiros sentados. Carros maiores? Exceções. Montados sobre chassis de caminhão, eram "focinhudos": o motor fora da carroceria, cara de caminhão mesmo. A boleia embutida na carroceria (em grande parte, Grassi – tradicionalíssima). Geralmente – as fotos mostram – eram Ford a gasolina. À época, os ônibus não dispunham de luzes de freio, as luzes traseiras de "pare", lembram? As portas. Estas, então… A da frente (por onde as pessoas desciam) era aberta ou fechada pelo motorista. Manualmente. Por intermédio de uma barra de ferro. Uma alavanca que ele acionava, travando a porta. A porta de trás – era demais!

Andei nesses ônibus pequenos, nos anos 50, que deles havia ainda. O cobrador – que circulava pelo "salão" (não havia catraca, primeiramente chamada de "borboleta", devem lembrar) – o cobrador é que acionava a porta. Ou a deixava aberta, ou a deixava fechada. Por meio de um pequeno trinco. Ou seja: as portas não eram acionadas pneumaticamente.

Lá por 1954 – eu tinha sete anos – andei nalguns deles. Da CMTC. Que saíam da Praça da Sé, um verdadeiro terminal. Linhas de Vila Prudente e Vila Ema, por exemplo. Eram os Ford. Empresas particulares os utilizavam em bairros de ruas de terra, tal que os ônibus eram chamados de "poeirinha". E – arrematando – desses ônibus havia também para o Interior. Urbanos, eram adaptados, pois sem bagageiro. As malas iam do lado de fora, no teto, amarradas e cobertas com encerado ("Locomotiva", talvez!). Havia uma escadinha na traseira do ônibus. Contemporâneos de mim devem lembrar.

Com o advento da CMTC – que passa a operar "oficialmente" a partir de julho de 1947 – ônibus, mas ÔNIBUS mesmo! surgem nas ruas paulistanas. Como é do conhecimento, a Municipalidade vai buscar nos Estados Unidos ônibus coaches. Zero-km! Para a recém-criada CMTC. Modernos, bonitos, robustos, confortáveis. Iguaizinhos aos de Detroit, Chicago ou Nova York! Quem gostava de ônibus, principalmente dos anos 50, deles não deve ter esquecido: GM TDH coach e Twin-Coach! Sim, ônibus "de verdade": inesquecíveis!

Os GM coaches, de 1948 até os anos 60, praticamente ficaram restritos (alguma exceção) às linhas que iam para o Sumaré, Perdizes e Lapa. Saíam da Patriarca ou da Ramos de Azevedo. Velozes, motorzão traseiro e de ronco poderoso! Diz um jornal de arquivo que começaram em maio de 1947. Mas nas linhas Jardim América e Itaim Bibi. Andei pouco nesses ônibus, começo de 60. Uma lindeza!

E os belos Twin? Àqueles se igualavam, de modernos e confortáveis, não? Padrão americano: muito bons! Estes dois modelos de ônibus, sim, tinham luzes de freio: "STOP"! Com o tempo, nacionalizadas: "PARE"! Assentos estofados, de couro; portas que abriam e fechavam com suavidade (pneumaticamente, lógico); luzinhas que acendiam para iluminar os degraus. O Twin com os pára-brisas inconfundíveis: em ângulo sólido, seis partes. Ao contrário do tipo comum, vidro plano. Ambos os modelos marcaram a CMTC.

De quando a CMTC punha um "aviso" nos jornais – aumento de tarifa era um! – tinha uma pequena foto ou um desenhinho desses ônibus: Twin e GM coach. Além, é claro, do bonde Centex. Os três eram as referências da CMTC. Peguem cartões-postais, dos anos 50. Do Centro. Tais ônibus aparecem, sempre. Principalmente os Twin. Na Sé, no Anhangabaú, na Nove de Julho; na São João, no Chá, no Santa Efigênia; no Largo São Bento. Ficaram na lembrança. O Twin – lembram? – tinha um motor nem na frente, nem atrás: sob o piso, entre os eixos. Silencioso. Ônibus vanguardeiro que surgiu lá por 1945, 1946. Muitas cidades americanas os empregaram, mostram as revistas.

Por exemplo, andei neles – de moleque – na linha 33 – Quarta Parada, da CMTC. Saía da Clóvis. Ao lado de outra, de Twin também, 60 – Água Rasa. Linhas outras, como Circular, Irradiação e Estações eram "redutos" do Twin. Estações que, como a Avenidas, tinha dois sentidos ("vai e vem"). Muitos lembrarão. Linhas essas duas sempre cheias: também de "batedores de carteira", gatunos que os jornais denominavam de "punguistas".

Para meus lados, Vila Mariana, só havia uma linha de Twin: de curto trajeto, 109 – Lins de Vasconcelos. Linha esta que, anos 60, sucumbiu, substituída por duas outras: Sumaré – Ipiranga e Fábrica – Pinheiros. Que hoje têm outros nomes.

"Fageol Twin-Coach" era o "nome completo" dele. Logotipos (emblemas) dentro e fora dos carros mostravam-nos. Traziam a procedência: Kent, Ohio. Que eu não sabia pronunciar. Explicavam: "É americano. Orráio". Molejo (suspensão?) "Torsilatic", mostravam os "reclames" nos jornais. Qualquer desnível da rua e o "Torsilatic" dava o suave balanço! Privilégio dos Twin.

Adquiridos em 1948, revigorados quando Adhemar de Barros prefeito, em 1957, os Twin – nos anos 60, final da vida útil – agonizavam. Agora lentos e fumacentos! Fumaça de dar inveja à Maria-Fumaça da Cantareira. Fumaça de quando esses ônibus subiam a Rangel Pestana, na ânsia de chegar a Clóvis e tomar fôlego! Chegavam até a ser ultrapassados pelos bondes, que também subiam a Rangel, paralelamente. O obsoletismo, enfim, lhes havia chegado. Era o fim. Questão de tempo…

Com Faria Lima, em 1965, a CMTC vira "Nova CMTC", lembram? O alaranjado de Prestes Maia vira azul e creme. Os veteranos ônibus importados, todos eles, ganham passagem para a sucata. A grande frota, agora – o que não é FNM – é Mercedes-Benz. Consolida-se a supremacia da marca da estrela de três pontas, alemã.

Como sabemos, os ônibus urbanos de hoje são maiores. Mais altos, mais possantes. Janelas amplas. E transportam mais passageiros. Coexistem e enxameiam, micros e compridões articulados (e bi). Os Twin-Coaches da CMTC, ou os da Viação Cometa – nos quais viajei para Santos – são só lembranças. Nostalgia. Principalmente para quem deles gostava. O suave balanço? Só na imaginação. Quando deparamos com um Twin de cartão-postal. Ou de jornal de arquivo. Ou ainda num filme de Primo Carbonari. Que os deve ter filmado bastante. Aqueles ônibus do suave balanço…

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