Nasci e morei até os oito anos na Rua Borba Gato, nos números 632 e 633. Hoje essa rua é a Virgílio de Carvalho Pinto, e começa no último portão do Cemitério São Paulo, na Cardeal Arcoverde, e segue em direção da Teodoro Sampaio, onde naquele tempo era interrompida por um barranco, ou trincheira, como se diz hoje.
É curioso que morei primeiro em uma casa térrea, onde nasci, e depois mudamos, apenas atravessando a rua para um sobrado em frente à casa antiga. Mudanças positivas para a família, pois meu pai estava trabalhando de mestre de obras numa firma de construção alemã.
Naquela rua brincávamos de tudo, e em certas ocasiões brigávamos com turminhas "inimigas" que moravam mais para o lado da Teodoro Sampaio.
Nosso dentista, Dr. Antônio, ficava mais para os lados da Teodoro, e o que me chamava atenção era sua extrema educação e paciência no atendimento de crianças. O carrão reluzente pertencente ao dentista era um Chevrolet Belair, verde-água e branco, com para-sol e sensor de estacionamento; estes sensores eram quatro varetas que ficava ao lado das rodas, um por roda, e quando tocavam o meio fio faziam acender uma lâmpada no painel do veículo, orientando o condutor ao fazer a baliza. Acho até hoje uma ideia sensacional que foi descontinuada pela indústria de automóveis. Mas existem muitas outras, como os faróis direcionais, que acompanhavam as curvas, dos carros Tucker norte-americanos.
O tema de minha história é meu irmão, quase dois anos mais velho e que não gostava que eu ficasse com sua turma de garotos mais velhos. Eu fui insistente e chato, mas não consegui me misturar.
Um dia estava no jardim de casa e escutei gritos desesperados de meu irmão próximo dali. Corri até o portão e vi um quadro terrível: três garotos de uma turma rival batendo nele. Situação de tortura, o garoto maior segurando os braços de meu irmão e ele de costas para um poste, imobilizado, levando murros no rosto e na barriga dos outros dois.
O sangue subiu em minha cabeça como um foguete, não pensei em outra coisa a não ser libertar o mano. Corri e peguei meio tijolo que estava jogado na calçada e, com toda força e velocidade de meus 6 anos, bati com toda força nas costas do grandão que estava mantendo meu irmão imóvel; o resultado foi a saída de uma baforada de ar imensa que o fez cair por terra.
Com meu mano liberto, os outros pararam de bater e recuaram assustados; catei no chão os restos do tijolo que tinham virado três ou quatro pedaços menores e joguei nos dois que estavam ali, que imediatamente desceram a rua a toda, acompanhados do grandão que saiu correndo meio torto e gritando de dor.
Deste dia em diante meu irmão passou a me olhar de forma diferente. Não gosto de violência e não me orgulho do acontecido, mas um irmão apanhando de três, é para Deus me perdoar. Assim espero.
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