A Vila

A vila era naquele tempo um reduto de paz, na verdade quem ali morava só não dizia ser o próprio paraíso apenas por uma fundamentada razão religiosa: eles respeitavam e muito o Padre Damião e, com certeza, para ele o paraíso se localizava nas longitudes dos céus.

A Vila Prudente, nascida nas terras do /Caguassu/, bem como dos baixos e altos do /Zimbauba/, doadas a João Ramalho no século XVI, e por sua vez adquiridas por João Pedroso nos alvores do século XIX, para primordialmente se dedicar à pecuária, e que deram origem também às hoje conhecidas Vilas Ema, Vila Zelina, Vila Diva, Vila Alpina e adjacências.

Nos fins do século XIX, Martinha Maria, viúva de Antônio Pedroso, vende parte das terras para os irmãos Falchi que, a 4 de outubro de 1890, iniciaram a instalação de uma fábrica de chocolates, sendo esta então considerada a data oficial da fundação da vila e que recebe o nome de Vila Prudente de Moraes em homenagem ao então presidente do Brasil.

Na sequência se instalam na região indústrias cerâmicas como a Cerâmica Vila Prudente, conhecida pelos moradores como cerâmica Zappi, localizada obviamente na rua que recebeu o nome de José Zappi e que não passava de uma viela bastante larga, formada por duas faixas separadas por um riacho límpido, onde lambaris faiscavam seu reflexo prateado e lambiam as margens com suas caudas de um rubro sanguíneo, disputando o espaço ao lado dos minúsculos guarus.

Este riacho, que além dos peixes era pleno de Pitus, passejava tranquilo, ignorando os moradores, porém, não se deixando esquecer, lembrando a todos de sua existência na época das chuvas, quando impiedosamente inundava o largo de Vila Prudente, onde se espraiava prazerosamente se expondo, então barrento, ao chapinhar das pessoas, e prosseguia em sua marcha seguindo aproximadamente pelo traçado da Rua Ituverava, ao fim da qual se unia a um outro riacho, onde hoje se situa a Avenida Luís Inácio Anhaia Melo, este riacho conhecido como o Córrego da Mooca, este mais ancho, nascido pelas bandas de Vila Zelina, e os dois somando forças desaguando no Tamanduateí, um belo rio de águas límpidas e piscosas, onde lambaris, pibas, bagres traíras e muitos outros peixes nativos viviam, isto já no /Ypiranga/, nas alturas da Rua dos Patriotas.

O coração da Vila bem onde se iniciava, à viela José Zappi, era o chamado largo da Vila Prudente, depois batizado de praça /Jequithay/, e, mais tarde ainda, na metade do século XX, lá pelos anos 50, rebatizada como praça Padre Damião.

A fábrica de papelão Búfalo se localizava na Rua Cavour, ocupando um quarteirão, margeando de um lado pela Rua Itamumbuca, tendo aos fundos o conhecido Córrego da Mooca e fechando pela Rua Ibitirama.

Da praça /Jequithay/ partiam todas as principais ruas do bairro. A principal rua, a Capitão Pacheco Chaves, partia da praça Jequithay, seguia em direção ao Ypiranga, após cerca de um quilômetro atingia a várzea dos baixios do rio Tamanduateí, onde se localizava a estação do Ypiranga da São Paulo Railway.

Na praça Veiga Cabral, hoje praça do Centenário de Vila Prudente, e nas suas proximidades viviam os mais portentosos moradores ao lado das instalações industriais, e à medida que se distanciavam desse núcleo, se distribuindo pelas ruas Cananéia, Ingai, Indaiá, Imbituba, Itamumbuca e arredores, se localizavam as moradas dos operários e se instalaram outras indústrias.

Nos inícios dos anos 40 surgiu na Vila Prudente a primeira favela de São Paulo, em uma área doada pelo Instituto Brasileiro do Café.

Isto lá entre o Ipiranga e a Vila Prudente.

Desde os fins da década de 20, foi iniciada uma conexão de ônibus unindo a Vila Zelina a Mooca, passando pela Vila Prudente,

Para se atingir o centro da cidade havia o trem que passava pela estação do Ipiranga e conduzia os passageiros até a Estação da Luz, ou ainda a opção do bonde 32 – Vila Prudente, que, na verdade, não chegava até a Vila, mas sim tinha seu fim de linha na Rua Cap. Pacheco Chaves, a cerca de 500 metros da estação do Ipiranga, em frente ao local onde se instalou na década de 50 a fábrica da Ford, na verdade só nos anos 50 é que a linha do bonde foi prolongada até a praça Jequitahy.

Já pelos fins dos anos 40, o Cine Vila Prudente era um dos pontos favoritos de lazer. Havia também nos fins de tarde e anoitecer dos sábados, domingos e feriados o curioso “ Vai e Vem”, que nada mais era que o passeio dos jovens que partiam da praça Jequitahy e iam conversando aos bandos pela Cap. Pacheco Chaves até o Cine Vila Prudente, e retornando daí para a praça. Os rapazes em seus grupos, as mocinhas em outros grupos, jogando olhares em inocentes flertes.

A Vila continuou crescendo e perdendo suas características únicas, os tipos, as pessoas, as maneiras típicas de um lugar único, como uma cidadezinha do interior, engolfados pela cidade que numa explosão de progresso abarcou tudo, deixando só saudades, dos bons tempos de tranquilidade.

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