Minhas primeiras memórias desta encarnação remontam ao bairro do Cambuci, para onde minha família se mudou em 1961, quando eu tinha apenas dois anos. Os prédios do IAPI (algo como Instituto de Auxílio e Previdência dos Industriários) eram como são hoje, talvez apenas em seu conteúdo arquitetônico! Porque, no que se refere à segurança, redondezas e liberdade, estes prédios acompanharam o progresso e, aparentemente, sobrevivem em pé pela solidez da construção.
Mas, nos idos dos anos 60, muitas lembranças se acumulam, todas elas na mais absoluta humildade, mas distante de qualquer miséria ou falta de itens de sobrevivência. Eu não tinha a TV, mas tinha a rua, a terra, o espaço, o ar respirável! Eu não tinha o hambúrguer, mas tinha o bife, tinha o pão, tinha as frutas!
Ainda ressoam em minha mente os ruídos da época: o tec-tetec-tec do vendedor de biju (que minha mãe tentava me demover da ideia de comer dizendo que era feito de casca de barata!), a voz potente do vendedor de quebra-queixo, delicioso “jesus tá me chamando” com coco e açúcar queimado, o apitinho do amolador de facas, a corneta do rapaz que trazia pães doces de todo tipo em sua bicicleta. Ficou na memória o dia em que o Esterco (era esse o apelido do rapaz, não tenho a mínima noção do porquê) pegou a bicicleta para dar uma volta e tombou os pães doces. O que deu este dia nem eu nem os amigos da época devem lembrar, porque a providência imediata era sumir estrategicamente pelo tempo que fosse necessário!
Os terrenos ao redor dos prédios eram todos baldios, com um ou dois campos de futebol, de terrão. Sumíamos por eles, só acordados para a realidade pelo distante chamado de uma das mães, que nos faziam perceber que o estômago roncava ou que a noite caía, situação que já naquela época era temerosa para crianças pequenas, pois o “lusco-fusco” do fim da tarde era a senha para os tarados, que gostavam de pegar criancinhas. Personagem que ninguém ousava apostar para ver se era verdadeiro!
Hoje, os prédios estão cercados, nos terrenos cresceram prédios do INSS, caixotes tão feios quanto os prédios do IAPI, em redondeza não muito distante reside toda a miséria da Baixada do Glicério. Mas, com certeza, as crianças de agora devem ter os seus substitutos para o biju, o algodão doce, o quebra-queixo, e devem correr pelo espaço limitado com a imaginação da liberdade!
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