Na esquina da Travessa Lameirão com a Rua Assumpção, lá onde estão as correntes, todos os domingos se realizavam verdadeiras festas.
As melhores roupas eram vestidas. O caprichado Gumex, ou Quina Petróleo Sandar, eram aplicados nos cabelos, e às 11 horas, pontualmente às 11 horas, todos se encontravam naquela pequena confluência viária. Meninas de saias ou vestidos, mas todas com aquele algo mais "odore di femina".
Ali se marcavam encontros para logo mais à tarde. Ou Cine Gloria, ou Piratininga, alguns que queriam manter o encontro em segredo iam ao Oberdan, ou ainda até o Rialto, certos de que ali não encontrariam nenhum espião.
Quase todos já haviam ido à missa, celebrada pelo padre Hugo e tendo como coroinhas o Vasto, o Guardabassi, o Dolci, enfim, um monte de moleques ansiosos para ver frente a frente o rosto das meninas durante a comunhão.
E por que o encontro era sempre às 11 horas?
É que nesse horário encostava um triciclo que tinha uma vitrine de doces feitos por um napolitano, doces fresquinhos que desapareciam como por encanto, pois todo mundo comprava, ainda que fosse apenas um.
Alguém sempre trazia um radinho Spica ou Mitsubishi, pelo qual ouvíamos os sucessos da época: Biquini Amarelinho, Lacinho Cor de Rosa, Segundas Intenções, I’m Sorry, Maria, Platers, Elvis, Bill Halley, meu Deus, não dá para lembrar e nem mencionar todos eles, mas tenho no coração cada um daqueles momentos.
É claro que isso não aconteceu semana passada, mas sim cinquenta anos passados, mas posso jurar que foi ontem, pois ainda sinto o perfume do ar, escuto os sons pálidos dos pobres auto-falantes dos radinhos de pilha, e não me canso de, em alguns domingos, pontualmente às 11 horas, passar por lá e ver se encontro o triciclo de doces…
Mas a população daquela região agora é outra. Os costumes e a educação são outros. O ar e o som são outros.
E isso é o que tornou a nossa San Paolo uma Sampa, mistureba de raças, cores, hábitos, e o Laruccia, muito melhor do que eu, poderá narrar, mas não faltará ocasião para eu contar alguns casos do Bar Fulgor, da venda do Arthur e da Pizzaria Castelões, todos muito fresquinhos, acabados de acontecer (na memória daqueles que vivenciaram os fatos).
Al Vedere Cari Amicci.
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