Entre pães e confeitos

Ontem sozinhos, ele e ti Sissi, entre pães e confeitos da padaria, se encontraram e olharam, quando a noite veio, queixosa e mansa, e o vento em brisa suave e leve, beijava-lhe o rosto róseo e lhe afagava as faces lisas e coradas; e os cabelos longos e crespos, enrolados entre fivelas e presilha, no uniforme da padaria do supermercado, ele, o professor de matemática, sentiu o coração palpitar num soar bendito. Estes olhos verdes-azuis, mansos e profundos, brilhavam nesta noite magnífica, com mais fulgor do que as mais belas estrelas do céu. E ela, com as mãos estendidas sob os pães e confeitos da padaria, no silêncio augusto, olhava distraída, sem mentindo o susto, os olhos meigos e mansos de donzela, a pele cor de rosa aveludada, com penugem dourada, que a farinha cobria de finíssima camada. E o contorno branco do avental, em pregas atraentes, cruzado sob dois seios tentadores, tinham feito falar timidamente ao virgem coração do professor, que ao passar todas as noites, antes de ir lecionar a matemática, numa escola no bairro da Lapa, e que a via risonha e linda, no balcão da padaria, daquele supermercado, com uma alegria simples e pura de menina, de mangas arregaçadas, a servir e vender o pão.

Tinha ele, o professor, apetites doidos de mandar a todos os diabos a escola, o lecionar da matemática; de invadir o balcão da padaria, de ir amassar o pão, de ser também padeiro, com tal menina assim.

Quis, porém, o destino, um dia no mês de maio, os repiques do sino da matriz da Freguesia do Ó, no bairro onde ela morava, anunciou, festivamente, que a menina dos pães e confeitos da padaria casou com o namorado, e ao pobre professor, os olhos se anuviaram e lá se foi ele, desta vez, para escola acabrunhado.

À noite, em seu modesto quarto, no silêncio tristonho, quando a solidão profunda esmaga o coração, e que os ciúmes regela o corpo e a alma, consola-o, porém, naquele instante, afagando a vaga idéia, de ensinar quem sabe um dia, a matemática a um filho dela.

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