Saudades do Brás (São Paulo)

Nasci em Madrid, em 1952, mas em menino fui para o Brasil, e morei muitos anos no Brás, ate 1964 ou 1965; depois voltei para Espanha e já nunca vi mais o meu antigo e querido bairro.

Andei olhando na internet um mapa das ruas de São Paulo. Eu morava, em menino, na Rua Oiapoque, que começa na Rua do Gasômetro e acaba na Avenida Rangel Pestana; nessa avenida é onde está, ou estava, o Grupo Escolar Romão Puigari, onde eu estudei e aprendi a escrever o português.

Relembro que adorava ver passar os trens. Quando as porteiras do Brás cortavam o passo às pessoas e aos carros, era para mim uma festa, pois um trem vinha aí. Também gostava imenso de andar pela estação próxima e ver os trens parados. E relembro também que algum domingo ou sábado, íamos, meu pai e eu, até Santos, num trem muito bonito, chamado, "Santos-Jundiai".

Um ano, no Grupo Escolar, ganhei uma medalha por ser bom estudante. Íamos todos os meninos com os nossos pais, irmãos, amigos…, até um cinema onde o teto abria-se e a gente podia ver o céu; não relembro o nome desse cinema, mas era nele onde recebíamos as medalhas.

Quando evoco aquele tempo sinto uma saudade muito grande. Até escrevi um poema dedicado àqueles trens, àquelas porteiras do Brás e àquela pequena estação.

A ESTAÇÃOZINHA

Por vezes relembro
aquela estaçãozinha.

Eu ficava tanto tempo lá,
vendo os trens passarem…

Uns, brilhantes e rápidos,
altivos e belos.
Outros lentos, intermináveis.

Levavam gado,
levavam mercadorias.
Levavam tanta coisa…

Havia os que também paravam
na pequena estação
e lá se demoravam
para que pudéssemos vê-los,
e até subir neles.

Às vezes, penso que as pessoas
são como aqueles trens da minha infância:
eles andavam pelos seus trilhos
e nós andamos pelo nosso destino.

Uns rápidos, outros lentos,
outros até paravam na estação.
Mas, afinal, todos passavam.

Mas, afinal…
apenas fica a saudade
daqueles que outrora amamos
na nossa efêmera existência.

J. Martín (Revisión: Lucia Constantino)