Adeus ao amigo Victor Siaulys

Li, com pesar, ao abrir o jornal, sobre a morte do Victor Siaulys, um amigo de longa data, dos tempos idos de infância, vividos na Rua Venâncio Aires, no bairro de Vila Pompéia. Victor deixou de existir. Partiu, o velho amigo, após um transplante de medula óssea, de uma leucemia mielóide aguda.

Acompanhei a distancia, a sua vida de grande empresário, no ramo da indústria farmacêutica e de seus dolorosos infortúnios pessoais. Lembrei-me de seu velho pai e sua mãe, ambos imigrantes, autodidatas, vindos do norte do Báltico, na Letônia. Lembrei-me ainda, daquele punhado de vagas casinhas que compunha o bairro dos italianos, dos húngaros, de portugueses, dos esthônios, lettos ou letões, lituanos ou lithuanianos, no estho-letto-lituano de Vila Pompéia. O pai, antigo funcionário das Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo, na Água Branca, foi demitido depois de trabalhar vinte anos, sem direito a indenização, por ser considerado comunista. Processou os Matarazzo, gente influente e contrariando a rara probabilidade de sucesso na demanda jurídica na época, ganhou a ação, recebendo uma indenização que foi a alavanca para construir o primeiro negócio de família, uma banca de peixe nas feiras livres.

Construiu uma modesta casa por volta de 1926 e ali nasceram os filhos Victor e Antonio Siaulys (este último médico). Foi uma infância difícil, como a de todas as outras crianças da época, atravessada pela rudez da Segunda Grande Guerra, quando não havia fartura de alimentos, escassez de gasolina; os automóveis tinham que andar acoplados a dois cilindros de gás e oxigênio (gasogênio) presos na parte traseira por um cinto de aço. Os tempos eram realmente difíceis. Para ganhar alguns trocados, nas noites de jogos esportivos, no antigo campo de futebol do Palestra Itália, que mudou o nome para Palmeiras por causa da Segunda Guerra, nós, a molecada do bairro, tomávamos conta (os flanelinhas de hoje) dos automóveis que estacionavam nas ruas do bairro.

Ao cair da noite, a molecada da rua começava agitar-se ao longo da calçada, rente ao sobrado do Francisco, um velho italiano, proprietário de um cortiço, onde também ficava a única padaria do bairro. A costumeira faina da noite começava com uma imensa fila no entorno da padaria, para adquirir dois filões de pães, pois, a farinha estava racionada pelas conseqüências dos anos de guerra; para adquirirmos um litro de leite e algumas pedras de açúcar mascavo, (açúcar preto sem refino) tínhamos que passar necessariamente ao relento, durante toda a madrugada, sentados no chão de terra batida, esperando pacientemente a abertura da padaria, o que acontecia impreterivelmente às seis horas da manhã.

Havia ali, também, famílias de italianos, poloneses, russos e portugueses que engrossavam a "fila" do pão como era chamada naqueles tempos de guerra. O Vitão ou "Alemão" como era carinhosamente tratado pela molecada da rua, também participava religiosamente deste evento; era comum vê-lo na fila, junto com o Ismael, o Fernando, o Roberto, o Wilmar e o Luizinho que era seu visinho de muro da esquerda e do Zé Vausnikia, do muro da direita, da mesma idade que ele, amigo da família. A mãe e os tios do Vausnikia também tinham vindo da Letônia e trabalhavam até altas horas, em duas máquinas de costura semi-industriais, costurando uniformes de trabalho para completar o escasso orçamento doméstico.

Foi assim, nesse ambiente familiar sadio, que o Victor e seu irmão Antônio cresceram. O Victor começou trabalhar como office boy para o advogado que ajudou seu pai a ganhar a causa trabalhista e decidiu seguir a carreira de advogado, formando-se em direito pela Faculdade do Largo de São Francisco. O pai, nesta ocasião trabalhando como taxista, conheceu John Demarest, na época, sócio proprietário de uma das maiores bancas de direito do país, e lhe ofereceu um emprego como estagiário. O Victor recusou a oferta porque ganhava muito mais como propagandista de produtos farmacêuticos.

Certa tarde, ao encontrá-lo na Praça da Republica, pelos fins dos anos cinqüenta, ele confidenciou-me que eu mantivesse segredo a respeito de sua embrionária formação acadêmica, pois naquela época era de praxe, os laboratórios não olharem de bom grado aos funcionários estudavam à noite, pois queriam que fizessem os relatórios das visitas médicas diárias fora do expediente normal de trabalho.

Uma das muitas vezes que encontrei o Victor foi quando ele apareceu no escritório da gráfica do Ismael, na Av. São João, com uma pequena caixa de papelão, solicitando um orçamento para corte vinco (máquina para sulcar papelão ou qualquer outro material) de amostra de medicamento.

A principio, com o dinheiro ganho com a indenização da Squibb, ele havia montado com mais dois colegas de trabalho uma sociedade de representação, a Pro-Doctor e, tempos depois, o seu próprio laboratório farmacêutico, o Aché, adquirido da farmacêutica Tereza Aché, cujo pai, na ocasião, havia falecido.

E de propagandista e advogado frustrado a empresário bem sucedido foi um passo. O Aché, hoje, é uma empresa 100% nacional com um faturamento anual de RS 1 bilhão de reais. O Victor Siaulys, também partiu para o ramo da hotelaria lançando o hotel Unique, Unique Gardem; empresário, fundador da Laramara, Associação Brasileira de Assistência ao Deficiente Visual, instituição modelo, dotada de toda a infraestrutura para deficientes visuais do qual era idealizador também com sua esposa, a Mara.

Sua filha, Lara, nasceu prematura e com problemas na retina, o que acabou por causar a perda da visão. A Lara foi vitima de retinopatia de prematuridade, decorrente de excesso de oxigênio em ambos os olhos. O Victor dedicou dezessete anos em prol dessa extraordinária causa até o fim de sua vida. Faleceu aos 73 anos de idade. Fica aqui o registro ao bom amigo e companheiro dos folguedos de infância da Rua Venâncio Aires na Vila Pompéia. E que Deus o tenha no lugar que ele merece.

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