Fabinho e o peixinho de estimação

Nossa família é muito unida. Sempre fomos. Passamos a infância e a juventude juntos, como bem cabe a uma família paulistana e de criação e origem tipicamente italiana.<br><br>Eu devia ter uns 9 para 10 anos quando nasceu meu primo Fabinho. Filho de minha tia Lydia com meu tio Antonio Rebollo Nunes, estava destinado a ser o penúltimo ou o último neto de minha avó Carolina. Por problemas de saúde de minha tia, também estava destinado a ser filho único. Talvez por essa coincidência, minha tia o batizou com meu segundo nome em primeiro lugar e com o primeiro nome de meu primo Antonio Carlos (também filho único) em segundo, o que coincidia também com o nome do pai, Antonio Nunes.<br><br>Assim nasceu o Fabinho, ou Fábio Antonio. Uma criança muito divertida, com quem nós, todos os primos, costumávamos brincar. <br><br>De algumas lembranças, me vem no momento ele, ainda bebê de fraldas, se tentando se equilibrar em pé e segurando no madeirame do teclado, ao lado de minha prima Cecília, enquanto esta tocava "Brejeiro" de Ernesto Nazareth, o menino a acompanhava numa espécie de dança, balançando o corpo no ritmo da música. Era muito divertido.<br> <br>O Fabinho protagonizou algumas histórias engraçadas. Uma delas quando minha tia o surpreendeu ainda bebê, engatinhando no quintal e com uma lesma na boca. Ele estava começando a balbuciar as primeiras palavras. Diante do susto de minha tia, ele estendeu o braço com a lesma na mão e falou: "É dôti" (é doce).<br><br>Tem outras. Ele era famoso por sua avareza infantil. Uma vez quando estavam no ônibus, minha tia pagava a passagem tentando se livrar das "manolitas" (moedas e notas de baixo valor). Ao vê-la entregar "tanto dinheiro" para o cobrador exclamou: "Chega, mãe!".<br> <br>Outra famosa é de quando acamado, um médico foi chamado e colheu material para exame de urina. O doutor vedou o recipiente e o colocou em sua bolsa. Quando foi se despedir da família para efetuar o exame laboratorial, o menino ordenou para o discípulo de Hipócrates: "O xixi o senhor vai beber é aqui mesmo!"<br><br>Mas a melhor de todas foi quando ele e minha tia constataram o óbito de seu peixinho de estimação. Ele perguntou para minha tia: "Morreu é?"<br>Minha tia pensando no que poderia estar sofrendo o garoto com a morte de seu peixinho, começou uma série de explicações que poderiam servir como lição de vida: "Morreu sim, meu filho. A vida é assim, por mais triste que pareça, a gente nasce, cresce, vive e um dia, Deus leva e a gente morre. Faz parte da vida."<br><br>Ele continuou seu questionário: "E o que a gente vai fazer agora?"<br>Minha tia, ainda pensando na dor do menino respondeu: "Agora a gente vai cavar um buraco, enterrar ele e pedir para que ele esteja em um bom lugar."<br><br>Imediatamente seu espírito escocês se manifestou e o Fabinho veio com esta: "Não mãe. Frita ele!" Nem é preciso dizer que minha tia desatou a rir. Como riram todos ao ouvir o relato do fato. Podemos concluir que nem tudo é emoção e tristeza no coração de uma criança. Depende do ponto de vista.<br><br>e-mail do autor: [email protected]