Fiquei orfão. Aquele garoto magricela, de óculos, que conheci em 1951, se foi assim, repentinamente. José Carlos Munhoz de Pontes. Bom caráter, bom cara, excelente motorista. Amigo dos amigos.
Nos conhecemos num sábado pela manhã, no campinho de futebol da Rua Miranda de Azevedo, na Vila Pompeia. Ele com oito e eu entre nove e dez anos. Era janeiro, mês de férias. Eu e minha turma de garotos jogávamos futebol, com uma bola de meia, recheada com papel e capim seco. Não tínhamos dinheiro para comprar uma bola de couro. Ele surgiu, sorridente, com uma bola de couro. Uma bola de couro!
– Posso jogar? Perguntou.
Um dos garotos deu um tapa na bola, tirando-a das mãos dele. Que alegria. Pela primeira vez íamos jogar com uma bola de couro. Zeca (até então eu não sabia o nome dele) ficou à margem do campo, com a expressão de surpresa e choro no rosto. Continuamos jogando com sua bola, ignorando sua presença. Ele foi para sua casa e voltou, dez minutos depois, acompanhado por seu pai. Paramos o jogo. O pai do garoto (sr. Nelson, vim a saber mais tarde) dirigiu-se a mim, por ser um dos mais altos e com aparência de líder da turma.
– Meu filho não pode jogar?
– O senhor quer a bola? Perguntei, estendo-lhe a mesma.
– Não. Gostaria que meu filho jogasse com vocês.
– Tá bem, falei. Ele vai jogar no meu time.
– Obrigado, ele disse, sorrindo.
Pronto. Nossa amizade começou aí.
Após o jogo, eu e Zeca ficamos conversando, e continuamos conversando durante esses 58 anos. Foi uma amizade sem interesses, pura de sentimentos, com troca de confidências, ajuda mútua, sem cobranças, sem divergências, apesar dele torcer pelo Corinthians e eu pelo Palmeiras. Sempre houve entre nós muito respeito. Crescemos juntos, brincando, jogando peladas, frequentando os bailes de carnaval e de fim de ano da Sociedade Esportiva Palmeiras. Íamos a festas como convidados ou como penetras.
Apresentei a ele sua esposa, Cadija, amiga de minha mulher Neide. Viajamos juntos, convivendo bastante, estreitando muito nossa já fortalecida amizade. Outros casais foram se agregando a nossa convivência, como Bruno e Vanda, Nicomedes e Iara, Ronaldo e Mara, Nelsinho e Lia, Paulo Sandoval e Vera.
Nossos filhos nasceram. Batizei seu primogênito e ele o meu. Continuando juntos, envelhecendo e vendo nossos filhos crescerem.
Ontem, 19 de março deste ano, a fatídica notícia, dada por Lucidalva, que trabalha com minha mulher, por telefone.
– Seu Wilson, o pai do Carlos André (meu afilhado), o senhor José Carlos, faleceu.
Sentei de susto, meu coração disparou. Não acreditei. "Deve ser pegadinha", pensei. Não. Triste realidade. AVC e infarto, fulminantes.
Nesse momento, um filme passou em minha cabeça. Tristeza, mágoa, revolta. Por quê? Por que tão cedo? Deus talvez tenha uma explicação. Eu não tenho. E agora? Agora é tocar a vida.
Aproveito para agradecer ao nosso Pai Eterno ter-me permitido conviver esses 58 anos ao lado desse seu filho, tão especial, tão amigo. Amigo não, um excepcional amigo, o melhor deles. Como diz a Canção da América, do grande Milton Nascimento: "Qualquer dia amigo, a gente vai se encontrar".
Vá em paz pelo caminho da luz ao encontro do Pai, amigo, e que Ele o abençoe. Adeus Abrão, até um dia.
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