Uma Rua Augusta

O Caetano elegeu a esquina da São João com Ipiranga para ter sua taquicardia poética, e existe sim, uma enorme poesia naquele trecho de selva, com seus edifícios decadentes e seu cheiro de churrasco grego.

Mas para alguém como eu, que se criou no eixo Bela Vista – Jardins, entre a década de 60, 70 e 80 (a situação econômica da família determinando em que lado da Paulista vivíamos), a Rua Augusta é o lugar em que o coração mais perfeitamente se arritmiza.

E por Rua Augusta, entenda-se toda a extensão de asfalto que vai do prédio do Diario Popular até o Edifício da Dacon, na esquina com a Faria Lima, que embora receba tantos nomes diferentes entre um extremo e outro, no descompasso do meu peito paulistano, onde as memórias se fundem com o mesmo grau de significância, perde todos os sobrenomes e se Augustiza.

Dizem que foi por meados da década de 50 que a Augusta começou a se celebrizar como rua da moda. Sei lá. Sei que na época em que eu comecei a me entender por gente, a Augusta era a Meca da moda, arte, design e cultura da elite paulistana.

Muito antes da paulistada descobrir as conveniencias de se gastar dinheiro no abrigo refrigerado dos Shopping Centers, gastar os solados dos sapatos Spinelli escalando os íngremes quarteirões da Augusta era a coisa mais chique-re-quérrima do mundo.

Era onde todas as moças de boa família, passavam as tardes de sábado. Minha família não era lá muito boa mas, meu pai tava enricando e por esse motivo a gente tinha que fingir que era "bem de vida". Então lá ia eu com minha mama, olhar as exposições da Augosto Augusta, comprar roupa na Paraphernalia, xeretar as lojas da Galeria Ourofino, ver os que o Aparicio tava expondo na loja da Rastro, parar na Billboard pra ouvir musica com aqueles fones de ouvido enormes, comer uma coxinha do Bologna e ficar lendo revista francesa na sala de espera do Beka, esperando minha mãe sair de lá parecendo a Elke Maravilha.
Depois pegar um taxi, almoçar muito tarde no Pandoro, (eventualmente uma feijoada no Bolinha) e fazer a via crucis de volta.

No domingo, tinha as matinês no conjunto Nacional ou no Cine Vitrine, e com sorte, um taco do Jack in the Box, ou beirute do Frevinho.
Teve o ano que acarpetaram (juro!) a Rua Augusta de vermelho. E teve o dia que a Rita Lee deu show no balcão da Jeans Store.

E daí teve o êxodo da burguesia para o Iguatemi e o trecho chique da Augusta foi invadido pelos Johnnys e Alfredos da zona leste, e "orra meu, num dava mais pa subí a Augusta sem os cara ficá te chamando de mina, de drento da brasília envenenada."

Mais ou menos ao mesmo tempo em que eu atingia a maioridade, e descobria o outro lado da Augusta. O lado "mardito". Que começava com a efervescencia dos frequentadores da Medieval e seus memoráveis shows de travesti (na época se dizia travesti mesmo… essa coisa de drag queen é nova). Passava pela serenidade da lojinha da Arte India e dos muquifos alternativos escondidos em becos e galerias (único lugar onde ainda era possível encontrar a versão cosmopolita das alpercatas nordestinas, e aquelas bolsonas de couro cru com fivelão, que quando eram novas, fediam a curtume) .

Terminava nos dois templos gastronômicos e culturais da galera do teatro. O Spazio Pirandello e o Amico Piolin, antes de dar uma guinada a direita e penetrar no auê do Bixiga e seus teatros, restaurantes, Cafés como o Piu Piu, os clubes como o Carbono 14 e Madama Satã, o cineclube do Bixiga, as festas da Acheropita.

E daí tinha o lado zen, na Av Europa, que provavelmente começava na sede do Balet Stagium… ou talves antes, no Procopio Ferreira, e culminava com as sessões gratuitas de cinema no MIS.

Em resumo a Rua Augusta em toda a sua extensão e muitos nomes era como a veia principal dos principais redutos culturais da Paulicéia entre as décadas de 70 e 80, alimentando a ebulição dos jardins, e do Bixiga. A aorta cultural paulista.

Faz mais de dez anos que não frequento a Rua Augusta, última vez foi pra encher a cara de sorvete na Sotto Zero. Dei uma busca no google pra ver o que rolava.
Além de endereços de Hoteis, so achei um pdf sobre a prostituição que parece ter se tornado o negócio do momento na rua. Nada surpreendente.
Uma rua Augusta, tão cheia de fases, e nuances. Lunática como o povo paulista.

O que me surpreendeu é que NINGUÉM, nenhum dos ex personagens famosos ou infames que passaram por essa rua, com seus negócios, comprando ou vendendo, exibindo ou admirando, servindo ou sendo servido… ninguém parece ter dedicado uma página, ou incluso uma menção decente a respeito dessa rua, em toda a internet.

Se alguém sabe de alguma página… me indique. Até lá, Rua Augusta da minha angina intelectual, serei a voz degringolada a cantar a irregularidade de tuas calçadas, sem o talento dos trovadores que te abandonam, mas com a disposição dos camelôs que te invadem.