Há algumas décadas, fazer compras em São Paulo tinha um certo "glamour". Em meados da década de 60, quando ainda não existiam na cidade os shopping centers , esses monstrengos do consumo, fazer compras envolvia um ritual de planejamento. Era preciso saber onde comprar, pois cada artigo tinha um endereço certo.
Se quisesse comprar chapéus, o endereço certo era a Rua Quintino Bocaiúva, no centro da cidade. Ainda hoje resta uma chapelaria neste endereço, sobrevivendo à modernidade e tentando se adaptar aos tempos atuais, oferecendo bonés e boinas, alternativa viável para compor um visual atual. Lembro de meu avô, cliente fiel desta chapelaria, onde comprava seus chapéus da marca Ramenzoni. Ele dizia que eram os melhores, mais elegantes… e dá-lhe comprar chapéu novo, pelo menos dois por ano: no inverno, um Ramenzoni de lã; no verão, um legítimo Panamá.
E ele aproveitava a viagem ao centro – sim, uma verdadeira viagem que era sair de casa, no bairro Alto da Previdência – para passar também pela famosa Botica Ao Veado de Ouro, que ficava ali na Rua São Bento, bem no coração da cidade. Ali era o endereço certo da compra de remédios manipulados e da água de colônia, que ele sempre usava em abundância, e também a sua famosa pomada para bronquite, que era aplicada em emplastros nos momentos das crises de tosse no inverno.
Eu acompanhava meu avô nestes passeios, e admirava sua elegância para ir, como ele mesmo falava, "na cidade". Sim, porque naquela época, qualquer deslocamento do bairro ao centro era conhecido por este termo: "vamos à cidade".
E para ir "à cidade", ele envergava sempre seu terno de risca de giz, gravata com alfinete dourado, sapatos de pelica, bengala, o inseparável chapéu e água de colônia, muita água de colônia para enfrentar o calor. Lembro-me até que embebia o lenço de linho branco em água de colônia antes de passá-lo a ferro, para que ficasse bem cheiroso. Eu lembro de ter perguntado a razão disso, e ele me respondeu, bem sério: "A gente nunca sabe quando vai ter de ofertar um lenço para uma dama".
Assim era meu avô, o seu Tonico. Nascido nas Minas Gerais, mas que adotou São Paulo como sua terra ainda na mocidade, e por esta terra foi adotado com muito carinho.
De tempos em tempos, essa "viagem" também tinha uma parada no bairro do Bixiga, mais exatamente na Rua Conselheiro Ramalho, para comprar sapatos. Naquele tempo, um bom par de sapatos durava anos a fio, bastava usar os serviços de um bom sapateiro para colocar meiasola e salto, pois o calçado era verdadeiramente resistente. Então, comprar sapatos era uma ou duas vezes por ano, e os escolhidos eram sempre os mesmos: os de pelica da loja Pellegrini.
Feitas as compras do meu avô, era hora da diversão: almoçar no Salada Paulista, restaurante na Rua 24 de Maio. Ali, o prato de sempre, o nosso favorito: salsichas de verdade, daquelas que meu avô chamava de "Vienense" e maionese de batata. Com muita mostarda de verdade por cima, tudo servido no balcão de mármore, onde você comia de pé, mas sem a pressa dos dias de hoje.
E nas épocas especiais – Natal, aniversário -, esses passeios para fazer compras se estendiam até o fim do dia, com uma passada pela Casa Sloper, que ficava no final da Avenida Paulista, quase esquina com a Rua da Consolação. Ali era o lugar de encontrar os presentes finos para as senhoras da família, echarpes, lenços de seda… e também pela Sears, magazine que ficava na Rua Treze de Maio (onde atualmente está o Shopping Paulista), onde um andar inteiro de brinquedos esperava pela minha escolha, sob os olhos alegres do meu encantador avô Tonico…
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