Uma forração de madeira era o que cobria as vigas, também de madeira, que sustentavam o telhado da casa em que morávamos, no bairro da Penha. Assim, entre o teto e o telhado ficava um espaço suficiente para um adulto fazer os reparos quando necessário. Para isso existia uma passagem totalmente aberta, que ficava no teto do banheiro superior da nossa casa.<br><br>Não sei bem a razão, mas lembro que sempre tive medo desta abertura, e no meu pensamento de criança ali era um espaço perfeito para a entrada de algum bandido, ou então passagem de um belo esconderijo de almas do outro mundo, os fantasmas. <br><br>Tomar banho naquele banheiro era um sufoco, estava sempre alerta para aquela abertura… Que medo eu sentia, nada de olhar para o teto. Repetia várias vezes para mim: nada de ficar olhando o teto.<br><br>À noite, então, era de tremer as pernas e sentir o coração palpitar, quando minha mãe pedia pra fazer algo lá em cima nos quartos. Subia tremendo olhando pro chão e logo acendia as luzes. Descia num pé só aquelas escadas, pois parecia que alguém vinha atrás de mim. Que alívio quando eu chegava na sala onde estavam todos meus irmãos. <br><br>Não sei se eles percebiam o medo que me assombrava e se sentiam o mesmo que eu ou se faziam de fortes, para que meu pai não percebesse.<br><br>Muitas vezes ouvi as conversas do meu pai com meu tio, falando sobre os espíritos, que para mim eram os fantasmas da ópera lá de casa, aí eu me arrepiava!<br><br>Eu adorava esta casa, foi lá que passei a minha infância e adolescência, mas nunca gostei de ficar sozinha, pois o medo me fazia sentir coisas que eu não queria.<br><br>Ouvíamos muitos barulhos pela casa toda, acho que muitos fantasmas circulavam por lá e até batizamos um deles com o nome de Jorge.<br><br>Certa vez, após meus pais saírem para um cinema lá no centro da cidade, aconteceu algo que não esperávamos. Já era noite e minha irmã Bernadete subiu as escadas que davam acesso aos quartos, mas logo desceu aos berros e, assustada, dizia ter visto a cabeça de um homem de olhos claros na abertura do teto do banheiro.<br><br>Ficamos pálidos de medo, afinal meus pais não estavam, então esperamos que o homem fantasma viesse ao nosso encontro, meu coração batia descompassado nesta altura.<br><br>Nesta época minha irmã já namorava o Eliseu, e ele prontamente foi verificar o que havia lá em cima, claro que com meus irmãos na retaguarda. Subiram prontos pra atacar com força e coragem.<br><br>Bem, tudo se acalmou porque o que estava ali não era um fantasma, nem um bandido, apenas um gato que já tremia de medo com todo aquele barulho. <br><br>Foi um alívio para todos nós e demos boas risadas. Depois meu pai achou uma forma de fechar aquela abertura que tanto nos apavorava, mas o medo dos fantasmas continuou.<br><br>Não sei se tem alguma relação, mas esta casa onde nascemos e fomos criados, onde casamos e passamos momentos de medos e de encantamentos, hoje em dia é um centro espírita.<br><br>Mana, será que foi mesmo um gato que você viu, eu não me convenci! Até hoje tenho minhas dúvidas…<br><br>e-mail do autor: [email protected]