Revendo as fotos da infância

Ao rever a foto do jardim da infância, a Creche da Dona Yaya, comecei a recordar os alunos, um a um. Forçava a lembrança de cada nome: Luzia, Mariazinha, Pepe, Manuel, Cola, Cosmo, Rubens José, Manuela, os irmãos Jair e Marly, Elvira, Carminha, Manolo e Isabel…

Fixei os olhos em Isabel… Meditei. Refleti. Foi a primeira a retirar-se da foto. Da infância. A passagem da infância à fase adulta para Isabel foi um piscar de olhos. Passou por cima da adolescência. Havia pressa em se tornar mulher. Logo cedo iniciou os namoricos com os meninos. Engravidou sem saber de quem. Ficou falada. Sumiu do bairro, foi morar pros lados do Cangaíba, criar o precoce filho.

Nós, os outros moleques do Brás, continuamos a seguir o catecismo dos bons costumes. Tudo no tempo certo. Na hora certa. Até as furtivas saídas do bairro…

Recordei a primeira. Saímos pela primeira vez, já adolescentes, rumo ao centro da cidade. Subimos a pé. Rua Visconde de Parnaíba, Rua da Figueira, subida da Avenida Rangel Pestana, Praça da Sé, Rua Direita, e desembocamos na Praça do Patriarca.

Lá, um autêntico deslumbre. Toda a frente da Galeria Prestes Maia coberta. Uma enorme tenda branca fechava a passagem da galeria. Dificultava o acesso ao largo do Anhangabaú. Dentro daquela barraca de lona branca o locutor anunciava:

– Venham todos. Últimos dias (todos os espetáculos de rua estão sempre nos últimos dias), a Mulher Sem Cabeça. Ainda respira, ainda vive. A mais moderna tecnologia. Mantemos o corpo vivo através do plasma artificial…

Cotizamo-nos e entramos a assistir o espetáculo, com a curiosidade dos moleques de rua que haviam saído pela primeira vez do bairro.

No centro da tenda uma maca, um suposto corpo coberto com um encardido lençol branco. Ao lado um refrigerador Clímax, duas portas. Geladeira e congelador, ligando fios e conduítes transparentes ao corpo. Distinguíamos um líquido vermelho, o suposto sangue, ir e vir do congelador à maca, pelos condutos de plástico. O locutor comandava: “Mexa o pé direito”. O corpo obedecia. “Mexa o esquerdo”. O corpo se submetia à ordem. “Agora, levanta os dois braços”. Célere reagia. Com um rufar de tambores no gravador, anuncia a abertura da porta do congelador.

Em seguida, o locutor, os seguranças e o gerente do espetáculo saem correndo atrás de todos nós. Riamos e corríamos, gritando… é a "Isabé"… é a "Isabé".

Era de Isabel, da antiga escolinha da Dona Yaya, a cabeça do refrigerador, que cerrava os olhos e segurava o riso nos lábios…

Reencontramos, após anos, Isabel, a mulher sem cabeça!

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