Jardim São Luiz – Represa – Itinerário da saudade – Linha 6096

Durante oito anos, 1968 a 1975, estudei no Colégio Estadual "Melvin Jones", desde o curso de admissão ao ginásio, curso ginasial e o colegial, no Bairro do Socorro, na Avenida de Pinedo, 539, próximo à Represa de Guarapiranga, no período das 19h00 às 23h30.

Foram oito anos fazendo o mesmo itinerário de ônibus usando a empresa de ônibus Auto Viação São Luiz Ltda., com garagem na Avenida João Dias, em Santo Amaro, uma das mais antigas da zona sul, que tinha como cor vermelho e amarelo. Nessa época, dos anos 1960 até os anos de 1980, tomava-se ônibus também pela cor, pois cada área da zona sul tinha uma empresa especifica; como na região de Jardim São Luiz e Vila das Belezas, Capão Redondo, (Salvador Correia). Até uma linha que ia até Itapecerica da Serra da Empresa São Luiz era de cor vermelha e amarela, porém com uma faixa verde no centro para diferenciar das outras linhas.

A maioria desses ônibus era da Mercedes Benz e predominava o modelo MB-O-321 (1958), o mais antigo, e depois o MB-O-326 e MB-O-352 (1962), todos monoblocos de motor traseiro.

Na região do Socorro, a empresa era Bola Branca e Gatusa (tusa), do lado da Vila Remo depois Jardim Ângela era a empresa de ônibus Auto Viação Jurema, de cor verde predominante, depois mudou para vermelho e azul claro; ainda tinha as empresas que atravessavam da zona sul para a oeste, como a Santa Brígida. Nos dias de hoje há uma grande mistura, novas empresas surgiram, e uma só empresa faz várias regiões como empresa de ônibus Sambaíba Ltda., que parece que ganhou a concorrência para fazer toda a cidade.

Voltando a falar em itinerário de ônibus, até os anos 1980 a região do Jardim São Luiz, hoje Distrito S. Luiz, era o final de linha, chamado ponto final. Os moradores de bairros mais longes e incipientes tinham que ir a pé até esse local para tomar o ônibus para o bairro do Socorro (Represa), e um outro ponto para o Anhangabaú depois Praça das Bandeiras, linha 6435.

O ponto de partida ficava no início da Rua Yoshimara Minamoto com a Rua João Fernandes Camisa Nova Júnior, no Jardim São Luiz, ao lado da padaria "Rainha do Bairro", ele ia como Represa, com ponto inicial na Avenida de Pinedo, quase esquina com a Avenida João de Barros, em frente à casa de dança Vila Sofia e próximo ao Monumento em homenagem à primeira travessia do Atlântico em um hidroavião de Francisco de Pinedo, monumento este que aprendemos a admirar e respeitar, que sorrateiramente foi levada embora de seu local natural de nosso bairro para um lugar estranho e que nada tem a ver com a sua história. Ela está em frente à igreja N. S. do Brasil, nos Jardins, onde se encontra abandonado cheio de mato em sua volta.

O itinerário da linha 6096 era o seguinte: partindo do Jardim S. Luiz, o ônibus descia a Rua 1, hoje Rua Geraldo Fraga de Oliveira, entrava na Avenida São Luiz, hoje Avenida Maria Coelho Aguiar, onde fica o Centro Empresarial de São Paulo, passava pela Ponte João Dias e Avenida João Dias, toda de paralelepípedo, entrava na Avenida Rio Branco, também de paralelepípedo, seguia pela Rua Suzana Rodrigues, Largo São Sebastião, hoje Largo Bonneville, onde o bonde-101 partia de Santo Amaro para a cidade. Ali descia a Alameda Santo Amaro e em seguida à direita ingressava na Avenida Vitor Manzzini, na época toda arborizada, e Ponte do Socorro, Largo do Socorro e enfim Avenida de Pinedo, até o fim dela. No retorno voltava pela Avenida de Pinedo, Largo do Socorro, Ponte do Socorro, Avenida Vitor Manzinni, Alameda Santo Amaro, Largo 13 de Maio, Avenida Adolfo Pinheiro, Rua Conde de Itu, depois mudou para Rua Anchieta, rua da 11º DP, Avenida João Dias, Ponte João Dias, Avenida Maria Coelho Aguiar, Avenida Geraldo Fraga de Oliveira, e chegada.

Esse roteiro, além dos estudantes que lotavam os ônibus, principalmente à noite, também tinha uma enorme frequência de trabalhadores da região sul, Jd. São Luiz e bairros adjacentes como Jd. Brasília, Jd. Fim de Semana, Jd. Celeste, Jd. Casa Blanca, Jd. Monte Azul, Jd. Ibirapuera, que o dia todo lotavam os ônibus que faziam o bairro do Socorro, devido também ao enorme parque industrial nesse local. Era comum vermos pessoas andarem penduradas na porta do ônibus, fato esse que até hoje acontece e nunca muda.

Nesses anos muitos fatos aconteceram nessa linha, imaginem um ônibus voltando às 23h30min., quando se encerravam as últimas aulas da noite e a maioria dos alunos saía em desabalada carreira para não perder o último ônibus da noite, pois depois disso só a pé ou dormir na rua ou ir embora a pé, que daria uns 8,0km. Nesse horário era comum um motorista chamado Chicão, um senhor de raça negra muito forte e sempre de mau humor, fazer esse horário, às vezes gostava de sair mais cedo do ponto e deixar os estudantes plantados no ponto próximo do colégio; nesse horário o ônibus vinha lotado, onde 99% dos passageiros eram estudantes, ali dentro no aperto se cantava, brincava, outros dormiam, quer dizer tentavam, enfim, cada dia tinha uma novidade entre os estudantes. Também tomavam esse ônibus alunos de outros colégios que ficavam na rota, como Colégio Alberto Conte, Plínio Negrão e outros.

Vale salientar que todos os jovens, do outro lado do Rio Pinheiros, eram obrigados a estudar em Santo Amaro ou Socorro ou mais longe, pois até os anos de 1980 não havia nenhuma escola estadual ou particular com cursos ginasial e colegial, onde hoje é o Distrito São Luiz. As únicas mais próximas eram em Santo Amaro, Colégio Alberto Conte, muito concorrido, e o Colégio Melvin Jones, no Socorro, também muito procurado, lá havia até curso de latim.

Muitos colegas de nosso bairro foram estudar em Itapecerica da Serra, distante 15,0 km do Jd. S. Luiz, na Escola Estadual Prof. Porcínio Rodrigues, no centro da cidade. Hoje ele se encontra na própria Estrada de Itapecerica da Serra, próximo da delegacia de polícia, o ônibus que ia para lá até os anos de 1962 vinha do Anhangabaú, depois passou para Santo Amaro até Itapecerica da Serra.

Outros ainda estudavam em escola particular, como 12 de Outubro, na esquina da Avenida Adolfo Pinheiro com Isabel Schmidt, depois mudou nos anos 1990 para Rua Comendador Elias Zarzur, e o Colégio Jesus Maria e José, de incontestável qualidade, até hoje está no mesmo endereço, da Avenida Adolfo Pinheiro. Também tinha e ainda existe a escola SENAI Ary Torres, na Rua Mário Lopes Leão, e o SENAI SUIÇO, na Rua Bento Branco de Andrade Filho. Esses eram os mais próximos da gente e de qualidade, e em todos eles essa linha de ônibus Jd. S. Luiz – Represa atendia.

Com a crise econômica dos anos 1990, inflação de 3% ao dia, desmando do governo Sarney, brincadeiras do governo Collor, a maioria das empresas dessa região fecharam as portas, e com a criação de escolas de nível de 2º grau nas periferias e fundões da zona sul, essa linha de ônibus tornou-se deficitária, segundo os proprietários, e foi desativada.

Nesse mesmo local do ponto final do ônibus Jd. S. Luiz – Represa tinha, do outro lado da rua, o ponto de ônibus Jd. S. Luiz – Anhangabaú, depois Praça da Bandeira – linha 6435. Ficava exatamente no começo da Rua 25, hoje Rua Drº Octacílio de Carvalho Lopes, esquina com Rua João Fernandes Camisa Nova Junior, hoje é um ponto de táxi. Também foi desativado não por falta de passageiro, e sim porque o bairro cresceu muito e os mais distantes também cresceram, e esse ponto foi parar bem distante, no bairro chamado Jd. Capelinha e Parque Santo Antonio, que já foi considerado o lugar mais perigoso do mundo na década de 1990, hoje controlado com uma delegacia de polícia, a 92º DP, e vários comandos da PM e muitos órgãos não governamentais que ajudam a comunidade.

Como já descrito, esse cruzamento entre as ruas João Fernandes Camisa Nova Junior, Rua Yoshimara Minamoto e Rua Drº Octacílio de Carvalho Lopes era o centro nervoso do bairro e dos ônibus. Era nervoso porque quando havia greve, simplesmente uma multidão se aglomerava nesse largo, um correcorre das pessoas, bombas, brigas, polícia, enfim, durante muitos anos houve esse tipo de problema, creio que até de tanta greve dos motoristas de ônibus é que surgiram os perueiros, que na época era Kombi, carro de passeio oferecendo condução para os passageiros sem coletivo e a um preço absurdo.

Por volta de 1978, após a inauguração do Metrô, veio para próximo desse cruzamento mais uma linha de ônibus, a linha Jd. São Luiz – Metrô São Judas, de nº 675-A. Seu ponto era exatamente na Rua Benedita Lima Teixeira, perto da Antiga Rua 5, hoje Rua Antonio de Meira.

Lembro-me muito bem das enormes filas, a espera dos ônibus que era muito irregular à chegada deles no ponto, por isso formava filas de todos os tipos. Os fiscais tentavam fazer fila única, dupla, tripla, mas não adiantava, se faltava ônibus na linha, sem contar com os eternos furafilas. Quando resolveram fazer fila única e faltava ônibus, a fila chegava a perder de vista, devido a isso voltaram para fila dupla, mas com fiscal na porta para evitar os furões.

Na linha Jardim São Luiz – Represa, 6096, é interessante dizer que na subida da Alameda Santo Amaro, na passagem do Largo Treze de Maio e parte da Avenida Adolfo Pinheiro, num percurso de uns dois km, essa linha ele disputava espaço com o bonde-101, que vinha do Largo de São Sebastião, hoje Largo Bonneville, e ele sempre tinha preferência, pois não podia desviar e, com a lentidão normal, irritava tanto o motorista como os passageiros dos ônibus. Não sei quantos hoje que dizem que têm saudades dos bondes não se irritaram com o mesmo, são coisas do ser humano, e temos um exemplo recente dos ônibus elétricos, tróleibus, em que a reclamação era geral por sua vagareza e a constante queda dos cabos ligados à rede elétrica e a sua extinção parece iminente, pois várias linhas já foram extintas.

Hoje nossos bairros, Jd. S. Luiz, V. das Belezas e outros são apenas passagem de ônibus que vêm de locais longínquos devido à expansão da nossa região, que passam por aqui com pontos comuns e sempre passam lotados nas horas de pico, como Jardim Lídia, Valo Velho, Capão Redondo, Jardim Capelinha, Parque Santo Antonio. Para evitar excesso de ônibus com rumo ao centro da cidade, criaram vários terminais em nossa região, como: Terminal Capelinha, João Dias e Guarapiranga, Largo 13 de Maio, onde os ônibus de muitas regiões, assim como micro-ônibus, param e deixam os passageiros que embarcam em ônibus maiores (sanfonado ou biarticulado), rumo ao centro.

Praticamente esta linha, 6096, começou nos anos 1962 e foi até o ano de 2000, sendo que nos últimos cinco anos o ponto final foi localizado no bairro de Jd. Brasília, bairro próximo do Jd. S. Luiz, exatamente nas esquinas das Ruas Yoshimara Minamoto com Xico Santeiro.

Nessas quatro décadas de linha muitos causos aconteceram, muita gente se aposentou usando essa linha, muitos alunos tornaram-se professores, profissionais de diversos segmentos, muitos amores bem sucedidos, e por que não mal sucedidos, aconteceram, além daqueles que foram para um lugar melhor e que ajudaram no desenvolvimento dessa região.

Nessa linha, em abril, 1970, uma certa noite vinha eu e mais dois colegas de classe, Luís Carlos Bressan e Ariovaldo, num ônibus relativamente vazio, pois tínhamos saído mais cedo da aula. Sentamos naquele banco transversal perto do motorista, falávamos esse dia especificamente sobre um trabalho escolar, que versava sobre o esquadrão da morte, assunto do momento naquele ano. Para esse trabalho escolar a pesquisa foi feita comprando os jornais Última Hora e Notícias Populares, os quais diziam que se fossem apertados saía sangue, mas eram os únicos que traziam o assunto todos os dias com mais ênfase.

Naquela noite e dentro do ônibus vínhamos comentando sobre o assunto e calorosamente, e percebemos que de repente o ônibus, ao invés de descer a Rua Conde de Itu, desceu a Rua Anchieta e parou em frente à delegacia, a 11ª DP. Pensamos: alguém foi roubado, mas como? O veículo estava meio vazio, eram 22h00, ficamos esperando para ver o que acontecia, um olhava para a "cara" do outro para ver o desfecho. Sabíamos que quando o ônibus estava lotado era comum ter assalto, e quando isso acontecia o ônibus descia a Rua Anchieta e parava na delegacia.

Quando vimos um passageiro descer e entrar na delegacia e voltar com dois policiais. Ambos entraram no ônibus e foram na nossa direção e pediram para acompanhá-los. Imaginem nosso susto e surpresa, pois naquela época ser preso era o pior que podia acontecer a uma pessoa. Sem saber de nada fomos à delegacia e, enquanto esperávamos para sermos interrogados, um policial disse a nós que fomos presos por estarmos falando ou apoiando o esquadrão da morte e que tínhamos jeito de suspeitos, principalmente eu que tinha uma barba ruiva enorme, parecia o Rasputim, e ainda com idéias revolucionárias de estudante e ainda mais na época da ditadura militar. Depois de umas três horas de chá de cadeira fomos dispensados pelo delegado, que nem fez ocorrência, pois o pai do meu amigo conhecia o delegado e tudo ficou esclarecido.

No dia seguinte o colégio todo sabia do ocorrido, foi difícil explicar tudo que aconteceu. Depois fiquei sabendo que quem nos entregou era um policial à paisana que morava no mesmo bairro nosso, tive oportunidade de encontrá-lo depois várias vezes, mas nunca nos falamos.

Enfim, assim como aqui, em muitos bairros de São Paulo há uma história semelhante, que com certeza deixou saudades, pois registraram um fato importante de nossas vidas, fez parte dela e temos que registrar para eternidade, mesmo porque a maioria das pessoas passa mais tempo de suas vidas em ordem de tempo dentro de uma empresa, de uma escola, e depois dentro de uma condução.

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