Os Bondes de São Paulo

Em 1958, tinha eu meus 14 anos e morava com minha família no bairro de Vila Clementino. Para lá havia a linha de bonde nº 47 – Vila Clementino. Os bondes elétricos eram abertos, com somente dois eixos centrais, estribos, balaustres e freios à manivela. Um sino tocado com o pé pelo motorneiro (condutor) servia de buzina naquela época. Partiam do centro da cidade no seu ponto inicial na Rua Asdrúbal do Nascimento, subiam a Avenida Brigadeiro Luiz Antonio, entravam à esquerda na Avenida Paulista e seguiam pela Avenida Domingos de Morais até entrarem à direita na Avenida Conselheiro Rodrigues Alves, indo parar em frente ao Instituto Biológico de São Paulo. Aí era interessante: como desse local até o ponto final só havia uma única linha de trilhos, e esta servia tanto para ir como para voltar do ponto final, havia um poste com uma caixa seletora de semáforos com luzes verde e vermelha. A luz verde liberava o bonde para prosseguir viagem e a vermelha indicava que havia um outro bonde na área restrita a uma só linha. Com a luz vermelha o condutor era obrigado a parar e esperar o retorno do outro bonde para poder seguir em frente. E ficava alí, parado, às vezes por mais de quinze minutos, e ninguém reclamava. Fazia parte da viagem! Eu me servi durante alguns anos desses bondes. O lugar preferido pelos estudantess para viajar era a "cozinha" (apelido dado à cabine de traz do bonde). Lá se podia fazer bagunça, rir e contar piadas. Outro lugar disputado era o estribo. Perigoso, mas divertido. Subir e descer com o bonde andando era sinônimo de esperteza e habilidade. Quando alguém escorregava e caía, era uma gozação só. Outro bonde aberto que andei bastante foi o linha 3 Avenida. Tinha o mesmo ponto inicial do 47 mas, após subir a Avenida Brigadeiro Luiz Antonio, entrava à direita na Avenida Paulista e descia pela Rua da Consolação, sentido centro, até o seu ponto final na Praça Ramos de Azevedo, em frente ao Mappin e ao Teatro Municipal.
Em 1960, mudamos para o bairro de Campo Belo. Aí eu tomava os bondes fechados (apelidados de "camarões", por sua cor vermelha), que iam para Moema, Brooklin e Santo Amaro. Tinham seu ponto inicial no centro na Praça Dr. João Mendes Junior e seguiam pela Rua Vergueiro, Avenida Domingos de Morais, Avenida Conselheiro Rodrigues Alves, e aí chegavam ao Instituto Biológico. Nesse ponto, tinha início uma estrada de ferro, exclusiva para os bendes, totalmente cascalhada, com dormentes que prendiam os trilhos, e que ia até o centro de Santo Amaro. Os bondes possuíam um apito que alertavam pedestres e veículos quando atravessavam alguns cruzamentos. Foi uma época maravilhosa que deixou saudade. Você que viveu estas e outras experiências com os bondes de São Paulo e tem saudade dos bons tempos, comente e acrescente. Paulo Romanelli