Passei toda minha infância ouvindo falar em comunismo e socialismo. Por curiosidade de criança perguntei a meu pai o que era comunismo. Ele disse na bucha: – Comunismo é a igualdade dos seres humanos. A divisão da riqueza. Na Rússia todos ganhavam iguais, moram em casas fornecidas pelo governo sem ter que pagar aluguel.<br><br>Mas meu pai era um ser com curso primário e um operário como outro qualquer, que gostava de viver nas nuvens, igual a muitos outros que adoravam dizer que eram comunistas. Aqueles que andavam de cachecol da cor vermelha, gostavam de desenhar a foice junto do martelo. Ser comunista e falar mal dos EUA era a coisa que mais se fazia naqueles anos 1940-50.<br><br>Os sindicatos brasileiros eram autênticas filiais do regime da União Soviética, que os operários diziam Rússia. Nas campanhas eleitorais, a divisão da riqueza era o discurso de todos os políticos, quer nas eleições municipais, estaduais ou federais. O partido comunista era clandestino no Brasil, mas quando foi aprovada a constituição de 1946, o partido comunista foi liberado. Não ficava bem uma assembléia nacional constituinte ser aprovada com uma instituição proletária de fora do sistema. Afinal estava sendo aprovada a carta magna.<br><br>Na eleição seguinte, os "democratas" que sabiam do filão eleitoral que era o PCB (partido comunista brasileiro) se aliaram a eles com altos elogios. Aqui em São Paulo, em 1947, o candidato a governador Adhemar de Barros se aliou ao PCB, e ganhou muitos votos para se eleger em janeiro daquele ano.<br><br>Adhemar tomou posse em março, mas quando chegou o mês de maio do mesmo ano, por ordem do Ministério do Trabalho, o registro eleitoral do PCB foi cancelado, inclusive com o apoio de Adhemar, alegando que a Rússia era um perigo muito grande ao regime democrático brasileiro. O único comunista anistiado por Adhemar era o seu comunista radicado no PSP, Café Filho, que veio a ser candidato a vice-presidente na chapa de Getulio, por imposição de Adhemar, em 1950.<br><br>Os demais comunistas clandestinos estavam expostos, dentre os quais muitos artistas, escritores, gente de nome conhecido na mídia, como Jorge Amado, Mário Lago, Oscar Niemeyer e outros. <br><br>Já na escola, a pergunta que havia feito a meu pai tornei a fazer a minha professora, afinal, como podia confiar no que meu pai havia dito se ele não tinha um estudo aprimorado para tal, pensava eu. Engano, a resposta da professora foi igual a que meu pai havia dito. Então fiquei com aquela impressão de que havia algo de verdade. <br><br>Mas o tempo foi passando, e lendo coisas aqui e acolá, no jornal O Estado de São Paulo de domingo, que meu pai sempre comprava, li algo sobre o comunismo. E o articulista dizia: "Se dá bem no regime comunista da União Soviética o cidadão que é filiado ao partido comunista e trabalhava em órgãos do governo como a KGB, por exemplo".<br><br>Nos locais em que eu trabalhava, e num período em que se falava mais em futebol e o jornal mais lido era a Gazeta Esportiva, sempre tinha alguém que gostava de falar em comunismo. Era o caso de Jaurindo, que todos o chamavam de "Jauro", ele foi meu colega de escola e estava mesma sala que eu, e, portanto, deve ter ouvido a professora falar no regime soviético, respondendo minha pergunta.<br><br>Já praticamente adultos trabalhávamos na mesma firma, e ele se mostrava um comunista fervoroso. Batia no peito: Sou negro! Negro comunista. E ai de quem falava mal do regime soviético. Ficava bravo com seu irmão Jaci, porque era um negro imperialista. Citava como exemplo o nome de suas sobrinhas, que Jaci colocava como homenagem aos imperialistas norte americanos. A mais velha chamava Shirley e a mais nova Jéssica.<br><br>No exército ousou em levar um livro "vermelho" para ler. Deixava guardado em seu armário. Lia todos os dias nas horas de folga. Um dia esqueceu o armário aberto e o capitão da noite, por curiosidade, viu o livro e deu umas desfolhadas. No dia seguinte o capitão o chamou e disse em tom ríspido: – Bonito, hein, senhor Jaurindo, dentro da caserna lendo um livro puramente comunista?<br> <br>Jaurindo me disse que não sabia onde botava a cara. Mas ficou sossegado quando o capitão botou a mão em seu ombro e disse: – Fique calmo, camarada. Eu também sou adepto desse regime, mas não dou bandeira. Toma cuidado, pois o próximo que por ventura pegar esse livro não terá a condescendência minha. <br><br>Acho que as notícias da guerra fria, que era mais para fins eleiçoeiros e que se acirravam os ânimos, era lenha na fogueira nessa discussão. <br><br>Mas os anos foram passando e o mundo foi mudando, e o presidente dos anos 1980 era mais liberal, e a primeira dama "vermelha" tinha cartão de crédito, fazia compras no ocidente. Em vários locais onde o comunismo era forte já se tomava coca-cola e se falava em ter Mc Donalds. Eis que, de repente, deu a louca sei lá em quem, que deu umas marretadas no muro da vergonha mandando ao chão. Pronto, o comunismo já era.<br><br>Mas sempre tem os resistentes. Muita gente ainda era adepta do regime vermelho, e já no início dos anos dois mil fui a USP me integrar no projeto da professora Ecléa Bossi, que instituiu a faculdade da terceira idade, dando a chance de quem não tinha tido chance de estar numa universidade participar como autônimo das disciplinas do gosto de cada um.<br><br>Escolhi a disciplina que abrangia a política contemporânea brasileira.<br><br>Nos corredores da ala da História da FFLECH, bancas que vendiam livros estavam abarrotadas de livros, todos "vermelhos", até a cor da capa era vermelha. Era um tal de escritores que sobrenomes terminavam em consoantes, Y, K, V.<br><br>Então veio a minha cabeça fazer a mesma pergunta que havia feito na infância. Afinal, estava eu agora numa universidade, tida como a maior do Brasil, que formava acima de tudo pensadores. E numa aula perguntei à professora, o que era o comunismo? Por incrível que pareça, a resposta foi a mesma de sessenta anos antes: "O regime soviético era o que queria dar ao ser humano a igualdade social".<br><br>Hoje, 07/11/2008, leio no jornal O Estado de São Paulo uma nota de falecimento. Faleceu um comunista? Não! Faleceu um socialista com cara de burguês. Um diretor de empresa, aquele que teria tudo para ser mais um prepotente a dar ordens, a gritar com um funcionário que chegou atrasado, para fazer cara feia por ter o funcionário faltado devido a uma consulta ao médico.<br><br>Não, o cidadão que tinha falecido era totalmente o contrário do que tudo que aí está escrito. Trata-se Rudge Allegretti, que não tive o prazer de conhecer.<br><br>Ele era diretor responsável pela área financeira do grupo Objetivo e Universidade Paulista – UNIP, já há quarenta anos.<br><br>Todas as manhãs, pãezinhos chegavam fresquinhos. Funcionários humildes de diferentes setores (financeiro, contabilidade, tesouraria, artes gráficas, entre outros) recebiam os pãezinhos como café da manhã. Faxineiros, office-boys, eletricistas, seguranças, enfim, pessoas que saíam de madrugada de casa, que vinham de muito longe ou que mal se alimentavam, contavam com o pãozinho do "seu" Rudge.<br><br>Então se pode observar que existiu um real socialista. Ele não dividiu a renda porque a renda não era sua, e sim da empresa, mas pelo menos dividiu o pão nosso de cada dia, dita e repetida pela igreja, e que algumas não dividiu. E sei do que estou falando.<br><br>e-mail do autor: [email protected]