A vizinha

Carnaval era com ela mesma. Chegava dezembro e o coração acelerado naquele 'batcum danado'.

Começava a se preparar. Adeus à carne. Carnevale. Alegria é o que interessa. Melhor que Natal. No Natal tem gente que festeja e outros que sofrem por perceber o que não têm. Uns comem demais, outros de menos. Uns compram demais, outros não tem dinheiro pra nada. Carnaval não. Brinca o rico e brinca o pobre. É só querer.

Naquele prédio do CDHU do Jardim São Luiz nem todos se davam bem com ela não. A vizinha do lado até a achava esquisita, mas gostava dela assim mesmo.

Por que o povo implicava com ela? 'Por causa da cachorra'. Era mesmo uma barulheira infernal. Latindo dia e noite. Catinga que chegava nas janelas dos outros e entrava casa afora sem pedir licença. Quem podia aguentar? Só de noitinha é que ela chegava e limpava tudo.

Chegou fevereiro. Vestiu sua fantasia, bermuda preta e top lilás. Coração na boca em ritmo das marchinhas do seu tempo.

Deixou a cachorra na área como era de costume. Ração e água para três dias dentro da sala. A porta entreaberta. E lá foi ela feliz para mais um Carnaval.

No dia seguinte, o povo do CDHU só ouvindo os latidos. Depois uivos intensos e sofridos. Mais um dia se passou. Carniça de mijo e cocô cada vez mais insuportável. Um pensou em escalar a parede, outro em arrombar a porta. Mas qual, impossível.

Na quarta-feira de cinzas ela chegou de mansinho. Silêncio.

A bichinha mortinha de tudo. De sede e de fome.

Ela não fez por mal não. Foi o vento que fechou a porta da sala e a ração com a água ficou lá dentro da sala.

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