(Entre 1958/1959)
Carmelona sempre dizia em alto e bom tom: "Crianças não "entende" nada! "É tudo" miolo de galinha, "esquece" logo!". Mal sabia ela que crianças, quando algo as interessa, nunca esquecem e espalham, contam para todo mundo. Fosse como ela dizia, teria eu esquecido a pergunta que fiz ao meu tio Amedeo e aos seus amigos: Por que chamavam a Carmelona de Carmelona? E teria esquecido a resposta que deram…
Carmelona era uma mulher de um metro e cinquenta, por aí. Cheinha de corpo, do tipo carnuda, sem ser gorda. "Mignon". Cabelos castanho-alourados e os seus olhos eram de um azul intenso. Parecia mais uma adolescente do que a mulher de trinta e tantos anos que era. Então, por que essa pequena "bellezza" agradável era chamada de Carmelona?
Tio Amedeo explica em meio às risadas, suspiros e gemidos estranhos dos amigos: a linda Carmelina foi crescendo e "anche le mammelle" (também os seios). E segundo titio, as tais "mammelle" cresceram mais que ela. Um dia um espanhol olhou para aqueles "monumentos" e exclamou bestificado: "Madre de Diós, qué melones!" (Mãe de Deus, que melões!). E a Carmela virou Carmela Melones e, para não ficar tão evidente, os rapazes da rua fizeram a aglutinação. Ela virou CarMelona. Algum tempo depois, além deles, toda a rua a chamava por esse apelido, achando que era o aumentativo de Carmela. O amigo do meu tio, o Pierino, fala alto, em meio a gestos e risos: "Carmè é a própria Leite Vigor!". Explodem em gargalhadas. Meu tio, chorando de rir, retruca: "Ainda bem que antes de chegar na Vigor, a gente passa pela Fontoura…". Explodem em nova gargalhada.
Não entendia porque riam tanto. Saí de lá pensando que a pobre Carmelona era aleijada, "sofria de peitos grandes". Que maldade a do meu tio e dos amigos dele!
E lá fui eu, contar aos meus, a tal "maldade" do meu "zio" e dos "amicci"… E a história foi passada adiante como um rastilho de pólvora. Todos ficaram sabendo do "aleijão" da Carmelona. Ela também! Pior: ficou sabendo quem foi que contou.
E a Carmè pegou-me desprevenido, brincando no meio da rua. Pegou-me pelas orelhas e foi despejando aos gritos palavrões dentro delas. E pelas orelhas fui levado até minha casa. No portão, ela grita o nome da minha mãe: "Annamarì! Vem cá, que eu quero te falar deste "stronzo" de filho maledicente que você tem!". E a "mammetta", a "nonna" e, claro, o mulherio da rua, atraído pelos gritos, veio até o portão da minha casa. E a Carmelona, falando alto, chorando, em gestos teatrais dramáticos, conta toda a história, dando ênfase às palavras "mammelle" e aleijão.
Depois de ouvir o "drama" da pobre vítima da maledicência, Nápoles inteira no meio da rua e no meu portão, começou a rir. Mamãe e vovó também. Como? – pensei – Não vão me xingar, apedrejar, jogar-me pela rocha Tarpéia? Fiquei tonto.
Minha mãe, rindo, diz para Carmelona: "Deixa de ser estúpida, mulher! Quisera eu ter um par de aleijões desses!".
Dona Fina, rindo também, diz sem papas na língua e sem censura alguma: "Tivesse eu umas tetas dessas, estava feita na vida!" Risos. Mais comentários sobre as qualidades do "aleijão" da Carmè. E Carmelona foi relaxando, suspirando de felicidade. Lisonjeada com tantos adjetivos e demonstrações de inveja que os seus peitos causavam, relaxou de vez e entregou-se totalmente à lisonja. E a conversa girou em torno de peitos, peitões e peitinhos. Nesse ponto, minha mãe me manda "ghiuccà" (brincar). E até a Carmelona – que antes me queria massacrado – acaricia o meu rosto, sorri e me diz com voz terna: "Vai, mio bell' cucciollino, vai ghiuccà, vai…" (Vai, meu lindo filhotinho, vai brincar, vai…). E eu fui sem entender nada. Mas jurei a mim mesmo que eu não ia mais ligar para as "mammelle" da Carmè. Nem de ninguém… Será?…
Do outro lado da rua, brincando, eu ouvia o falatório e as ondas de gargalhada que explodiam pelo ar, e era a Carmelona quem ria mais. Cheguei à conclusão de que o "aleijão" da Carmelona era na "cirivella" (no cérebro) e não nos peitos…
"Femmene! Chi le capisce?… (Mulheres! Quem as entende?)
e-mail do autor: [email protected]