Quase sempre na minha vida, desde menino, tive como companhia um cão. A primeira foi uma "fox paulistinha" chamada Violeta, que me acompanhou desde criança até minha pré-adolescência. Morreu "de velhice", eu tinha uns 15 anos, fiquei triste, um vizinho mandou jogá-la no Rio Tamanduateí, eu disse: não, não, de jeito nenhum! Fiz um enterro digno de um cão (a cia. telefônica estava abrindo valas nas calçadas da Rua Caetano Pinto, e eu a enterrei na esquina com a Visconde, com direito a reza e tudo, eu e meus amigos).
Somente voltei a ter outro cão quando já era pai, foi início dos anos oitenta. Tive um boxer chamado Brutus, cão meigo, amigo e que todas as crianças da rua em que morava brincavam e disputavam a coleira para passear. Viveu comigo desde desmamado até a idade de seis anos, adoeceu (o que já era previsto) porque, quando o comprei ele iria ser "sacrificado". A razão: era albino, e com esse defeito desclassificaria sua linhagem. Ao saber disso tive pena e levei-o para casa, sabendo que cães albinos não vivem muito e são passíveis de contraírem doenças. Foi o que aconteceu. Acabou complicando e morreu prematuramente.
Jurei que não teria mais cachorro, quando certo dia, passando de carro em frente a um posto de gasolina, vi um pastor amarrado, na verdade acorrentado, parei para saber o porquê. O dono do posto disse que o cão apareceu durante a noite e, com medo de que ele atacasse algum cliente, o acorrentou, e estava esperando pela prefeitura (departamento de zoonoses), que iriam "levá-lo". Conclusão: não deixei e levei-o para a empresa, batizei-o de Rex, e ficou comigo uns seis meses (o guarda da empresa deixou o portão aberto, e lá se foi o Rex). Lindo cão, amigão, fiquei triste, coloquei anúncio em jornal, rádio, cartazes nos postes, mas infelizmente não apareceu.
Depois disso, tive a certeza de que jamais teria outro cão, quando vinha aquela vontade, relutava e desistia, embora meu sonho sempre foi ver meus filhos crescerem na companhia de um cão, mas, enfim, pensava na dor da separação, que é inevitável (acho que um cão deveria viver o mesmo tempo que a gente).
Passaram-se alguns anos, minha filha já era pré-adolescente, meu filho com uns quatro anos, quando certo dia meu cunhado apareceu com um filhote de dogue alemão, com mais ou menos trinta dias de vida, me disse que ganhou e mostrou o pedigree do cão, nome: Bartholomeu Von não sei mais do que. Dei até risada, onde se viu um cachorro com nome de Bartholomeu? Meu cunhado pediu que eu ficasse com o cão, porque ele havia ganhado e não poderia devolver, e etc.etc. Bom, confesso que foi amor à primeira vista, rebatizei-o de "Bartolo" e, sinceramente, a partir daquele momento iniciou-se uma amizade indescritível.
O Bartolo era um cão maravilhoso. Por força das circunstâncias, ficava em casa somente à noite, e, para ficar quieto, dormia agarrado a um chinelo meu, durante o dia ia comigo para a empresa, e lá ficava até à noite, quando voltávamos para casa.
Vivíamos uma verdadeira amizade. Surgiu uma oportunidade de ir para o Paraná, e só fui para lá se pudesse levar o Bartolo. Ia na segunda-feira, ficava até sexta, o Bartolo ficava durante o dia em uma poltrona no meu escritório, e permanecia lá sentado enquanto eu atendia os fornecedores, ou me reunia com os funcionários e etc. Quando precisava ir para a cidade, ele vinha comigo, íamos juntos a qualquer lugar, não me largava um minuto.
Ficava na fábrica durante o final de semana, acreditem, "me esperando", não comia, só comia quando eu retornava na segunda.
Após três anos voltei definitivamente para São Paulo, e, logicamente, vim com o Bartolo, só que desta vez, a pedidos, ele ficaria em casa.
Nos finais de semana levava o Bartolo junto com meu filho e seus amiguinhos a todo lugar, parques, passeios, e se houvesse algum em que ele não pudesse ir, nós (todos) desistíamos, somente íamos aonde o Bartolo pudesse ir. Nas férias adorava ir conosco para a praia, aonde ele ia, fazia amizade, era um cão especial, daqueles realmente que só faltava falar. Se por acaso eu me ausentasse alguns dias, ele não comia, somente quando voltava, subia (explico: deixei para ele a parte de cima da casa de três pavimentos, o último era dele), e comia desesperadamente. E acreditem, aquilo me emocionava tanto que ficava sentado ao lado dele, como que arrependido de ficar ausente, e ficava contando para ele sobre a minha viagem, e ele, como que estivesse realmente ouvindo, ficava ali quieto, me olhando, prestando atenção, e só depois de (sem exagero) horas eu descia, e ele, como que satisfeito com as minhas explicações, dormia.
Era impressionante a nossa amizade, nem sei como discorrer, era uma cumplicidade só cabível entre seres humanos. Às vezes eu fingia que estava bravo com ele e falava em um tom mais ríspido, imediatamente ele colocava as duas patas sobre a cabeça e, como que admitindo o que não fez, parecia que estava se desculpando. Era impressionante, tudo o que eu pedia ele fazia, parecia me entender, eu nunca ensinei nada para ele, na verdade ele me ensinou muito.
Somente tive momentos felizes e inesquecíveis ao lado do Bartolo. Às vezes, sabem aqueles dias estafantes, em que nada dava certo, que a gente nem tem vontade de chegar em casa? Comigo existia esses dias, mas nada me impedia de ter a satisfação de chegar em casa e encontrar o meu amigão me esperando, assim como uma mãe espera o filho, o Bartolo me esperava, e eu não via a hora de chegar, subir e ter o prazer de ser (literalmente) abraçado pelo Bartolo.
Em vista de ele ser um cão de raça grande, e totalmente de cor negra, por isso assustava as pessoas, esperava até as onze horas da noite e saía com ele para a rua, e como tinha certeza de que ele não atacaria ninguém, deixava ele livre da coleira e soltava. Havia alguns vizinhos que aguardavam este momento, enquanto ele passeava pelo quarteirão de casa, visitava alguns conhecidos ou simplesmente fazia novas amizades. Enquanto isso eu esperava uns quinze ou trinta minutos e assoviava, e, como num piscar de olhos, imediatamente ele aparecia.
Na praia, dentro do condomínio em que ficávamos, fazia o mesmo, só que lá o espaço era muito maior, e quando achava que ele estava demorando, baixava a porta da caçamba de minha caminhonete e, na escuridão, ficava percorrendo as quadras do condomínio e ao mesmo tempo assoviando, e aí, de repente, ouvia-se um barulho, e lá estava ele, já acomodado na caçamba da caminhonete.
Bem, como vocês já notaram, se for continuar falando do Bartolo, acho que, além de cansá-los, isto viraria um livro. Vou terminar contando como me separei "fisicamente" do Bartolo.
Dezembro de 1992, estava na festa de confraternização da empresa, atendo o telefone, minha mulher me diz: um balão daqueles que soltam bombas parou em cima de casa, todos os fogos se dirigiram aonde estava o Bartolo, e ele saltou (mais ou menos uns doze metros de altura), caiu em cima de uma porta aberta do térreo da casa e está imóvel, não deixa ninguém chegar perto dele. Saí desesperadamente, cheguei em casa, chorei de ver o estado dele, mas mesmo assim reuni forças e coloquei uma rede (de balanço) por baixo, e levei-o ao hospital veterinário.
Teve várias fraturas, pedi ao veterinário dele para acompanhar os procedimentos, não se podia fazer nada. Ficou internado uns dez dias, saiu do hospital e veio para a clínica do veterinário, que continuou o tratamento. Todos os dias recebia visitas, o veterinário me dizia que nunca viu nada parecido, ficava o dia todo recebendo visita.
Apesar de todo o cuidado, piorava dia após dia. Na noite do dia dezenove de janeiro fui visitá-lo (o médico pediu para eu fazer visitas rápidas, porque mesmo no estado crítico em que se encontrava arrastava-se para ficar ao meu lado), e nesta noite, quando cheguei (acreditem), o veterinário estava chorando, me assustei, ele disse que o Bartolo estava sofrendo muito, estava com septcemia (infecção generalizada) e que dificilmente resistiria. Fui ficar com ele, mal se movia, não aguentei, me despedi, triste, caiu a ficha, estava perdendo o meu melhor amigo. Fui até a recepção, no momento em que cheguei todos olharam para trás, e vimos a cena que jamais esqueceremos: ele estava se arrastando, usando as últimas forças que tinha e chegou até a porta. Saímos eu, minha mulher, meus filhos, amigos, olhei para trás e percebi que aquele esforço representava uma despedida.
Inconformado e sem coragem, ou melhor, covardemente (porque percebo hoje que ele merecia minha companhia naquela hora), fui para casa, não dormi, e logo cedo o veterinário me ligou, disse que o Bartolo não resistiu e que cuidaria das providências de praxe.
Não tive coragem de ver meu amigo morto, preferi guardar na lembrança todos os momentos felizes que compartilhamos, e sempre que lembro do meu amigo Bartolo me vem a esperança de encontrá-lo e cantarolo na mente aquele trecho da canção que diz: "qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar".
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