Vamos estudar?

Quem é que já não teve um amigo (ou amiga) de classe, nos tempos de escola, com o qual se reunia duas ou três vezes por semana para estudar?

Lembro-me do Aurélio, colega de turma no Liceu Coração de Jesus. Eu morava em pensão na Rua Monte Alegre e ele vivia com a família na Rua Caiubi, nas Perdizes. Gostava muitíssimo de ir à sua casa, porque muitas vezes ficava para o jantar, e quem já morou em pensão sabe o que isso significa. Naquele tempo, nas residências, havia almoço e jantar de verdade. Nada de lanches, hambúrgueres e outras bobagens que hoje entopem nossas mesas. Prática bastante frequente nas famílias, também, era o jogo de cartas, principalmente o chamado "buraco", ou "canastra".

Neste momento faço uma pausa para apresentar a Rita, ou Ritinha, como todos a chamavam. Morena linda, dentes perfeitos e corpo de mulher nos seus quinze aninhos. A Ritinha me virava a cabeça.

Durante as sessões de estudo, às vezes, ela se colocava de pé atrás do irmão e me provocava sorrindo marota e maliciosamente. E no jogo de cartas, sabem o que fazia? Sentava-se quase sempre ao meu lado e, de vez em quando, encostava sua coxa à minha e pressionava levemente, o que me deixava desconcertado e eu entrava em pânico com medo de que pudessem perceber. A consequência, para desespero de meu parceiro, era descartar o "coringa". Quantos "coringas" descartei por sua causa, ó irrequieta e sapeca Rita!

Era apaixonado por ela, mas, em nome de uma grande amizade, e pelo carinho com que aquela família me recebia, eu me continha e jamais avancei o sinal. Vocês entendem. Aqueles valores que os pais nos transmitem, como respeito, educação, lealdade, que a gente nunca esquece e carrega pela vida afora, quaisquer que sejam as circunstâncias.

Terminado o curso nunca mais vi o Aurélio; cada um seguiu caminhos diferentes em busca de seu destino, mas sua figura ficou para sempre marcada em minha lembrança. Ainda o vejo sentado à minha frente, livro aberto, cotovelo direito sobre a mesa e as mãos sempre a coçar as orelhas, e atrás dele, adivinhem, ela, a Ritinha, com seu sorriso provocante, brejeiro e inesquecível.

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