Sou de um tempo em que os trabalhos escolares eram feitos em grupo, consultando enciclopédias e poucos livros que chegavam a nossa mão. Lembro-me da famosa Enciclopédia Barsa, considerada um artigo de luxo, pois eram poucos os que a possuíam, muito reconhecida pelo seu contexto informativo atualizado.
Pelas dificuldades financeiras da época, eu mesma nunca possuí a Barsa e também nunca frequentei bibliotecas como a Mário de Andrade. Nos ditos trabalhos escolares, eu sempre procurava entrar em grupos em que alguém possuísse a tal enciclopédia, ou, ao menos, um pouco mais de acesso a outras informações.
Com o passar do tempo, já quase no fim de meus anos escolares, e ainda necessitando de ajuda nas pesquisas, acabei conhecendo um mundo bem diferente num lugar chamado Centro Cultural São Paulo.
A primeira vez que adentrei aquele espaço, ali ao lado à estação Vergueiro do Metrô, meu queixo caiu, agi desajeitadamente como que não pertencesse àquele lugar, primeiro por ser muito jovem e segundo pela imensidão do espaço, pois extrapolava as dimensões das construções em que estava acostumada do meu bairro do Limão. Tudo estava fora das proporções espaciais e informativas que havia tido contato até aquele momento. O enorme potencial informativo daquele novo espaço traduzia-se nas suas exposições de arte, dos mais variados gêneros; nas amostras de dança; nas apresentações teatrais e num ilimitado acervo.
A história do Centro Cultural começou lá pelos idos dos anos 70, onde, após a desapropriação do terreno causada pela construção do Metrô Vergueiro, começou-se a especulação do que poderia ser erigido no local. Num projeto inicial pensou-se em construir um complexo de edifícios com um hotel, um shopping e uma biblioteca, contudo, após várias reformulações, a decisão final girou em torno da construção de um centro de estudos de aspecto multidisciplinar.
Como foi idealizado e arquitetado nos meados e fins da época da ditadura, o Centro Cultural foi alvo de muita polêmica, o que fez com que os arquitetos responsáveis pela obra na época estivessem sempre de prontidão para não pisar no calo dos militares. Inclusive, um dos profissionais envolvidos na época fez um famoso comentário alusivo a tal situação dizendo: "Não somos subversivos, os "outros" é que são retrógrados.".
Passado os percalços, discussões e mudanças de planos, finalmente a inauguração do Centro Cultural São Paulo aconteceu em maio de 1982, e assim Sampa ganhava um maravilhoso nicho de cultura e informação.
Todo este assunto veio à tona quando, no vasculhar da minha memória, tentava encontrar mais um pedaço de história de São Paulo que estivesse conectada a minha vida. Assim, lembrei-me daquela minha primeira visita ao Centro Cultural São Paulo, a qual me deixou estupefata por causa da amplitude do espaço, da quantidade infinita de informações e da facilidade de acesso a toda aquela vastidão de recursos. Naquela época acabei virando "freguesa", frequentando o espaço não só para as minhas pesquisas, mas também aproveitando toda gama de entretenimento que o espaço oferecia.
E tempos depois, com a descoberta da atriz em mim, passei a frequentar seus palcos e coxias.
Arremato concluindo que sobrevivi meus anos escolares com informações emprestadas da Barsa, esclareci as dúvidas existenciais da adolescência no Centro Cultural São Paulo e hoje satisfaço as minhas curiosidades do mundo em que vivo num clique de um mouse, ou num toque da tela na rede infindável da Internet. E no futuro? Quem, como e onde saciaremos a nossa ânsia do saber?
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