Há tempos aquele relógio estava parado. Na parede da casa da Vila Sônia, uma casa construída com suor e lágrimas durante anos.
Nem me lembro quando o relógio parou. Ficou, mesmo assim, uns tempos na parede, até que um dia foi retirado dali. Foi ficando guardado ora numa caixa, ora em outro canto, e o relógio do sr. José não funcionava.
Era um daqueles relógios do final dos anos 60, que tinha um simpático pêndulo metálico, toda a caixa era moldurada e com um vidro de proteção.
Muitas vezes eu cheguei a ver o meu sogro acertando os ponteiros do relógio – quando ainda funcionava. Ele me perguntava as horas, eu respondia e ele tratava de acertá-lo à sua maneira, isto é, adiantando uns quinze minutos mais ou menos. E dizia para mim: "vou adiantar um bocadinho". E vez ou outra ia aumentando "mais um bocadinho". E eu me perdia, quando estava sem o meu, no pulso. Impossível saber as horas na casa do sr. José.
E eu ia apreciando prazerosamente as atitudes simples e simpáticas do meu sogro, ali, sentada à mesa da sala de jantar. Uma mesa grande, bonita, de madeira, onde eu sempre tentei ler a Folha de São Paulo e nunca consegui.
Eu não conseguia ler a Folha quando o sr. José era o primeiro a pegar o jornal. Ele abria o primeiro caderno, ia misturando as páginas iniciais com as do segundo caderno… quando eu via, o jornal estava com as folhas todas misturadas: o caderno Cotidiano, por exemplo, se misturava com as do Esporte. As de Informática se misturavam com as do caderno Mais. Do caderno Ilustrada ele gostava mesmo de deixar junto com as folhas do noticiário internacional e assim a coisa andava… E eu nunca conseguia ler porque eu não achava as notícias nos seus devidos lugares.
Mas ele nem ligava. Gostava de andar calmamente, assobiando de leve, distraidamente, com o seu bonezinho que lembrava o do Érico Veríssimo. Conversava com os vizinhos, plantava rosas, cobria a gaiola para que o passarinho dormisse mesmo em tempos de horário de verão. Me partia o coração ver aquele passarinho tendo que dormir às 3 da tarde! Eu falava, mas não adiantava nada. Lia com muita frequência e interpretava as notícias de um modo muito peculiar. Em 1985, por exemplo, quando da agonia de Tancredo Neves, chegou a afirmar que o problema todo se resumia ao seguinte: "colocaram soda no café no Tancredo" e mostrava com as pontinhas dos dedos juntas, em leves movimentos, como se estivesse salgando alguma comida.
Os debates políticos corriam soltos também em 1985, quando das primeiras eleições municipais depois do longo horror da ditadura. O eleitorado paulistano estava dividido entre Fernando Henrique Cardoso, Eduardo Suplicy e Jânio Quadros. Fizemos tudo para que o candidato da vassoura perdesse e desaparecesse do mapa. Fizemos boca de urna, falamos com os parentes, colocamos adesivos no carro, participamos de comícios, ajudei a panfletar. Mas quando fui falar com o meu sogro: "e aí, sr. José, em quem o sr. vai votar?". Ele respondeu: "no meu neto". O pequeno tinha apenas um ano de idade… e não era candidato a nada.
Voltemos ao relógio. Então eu trouxe o relógio do sr. José para um conserto aqui mesmo em Florianópolis. Andei pela cidade com o aparelho, subi e desci escadas de um centro comercial. Fiz uma pequena viagem com ele. Eu sabia de um especialista em Santo Amaro da Imperatriz, aqui perto, uma cidade deliciosa e interessantíssima – local da melhor água mineral do mundo… e nada de o relógio ser consertado. Neca e dulcineca!
Aí eu consegui! Quase um mês para ficar pronto e ontem o relojoeiro me telefonou confirmando a minha teimosia: tinha conserto. Na hora me troquei e fui buscar o objeto de grande valor para mim. Está ali, na minha parede da sala, imponente, olhando para a janela, como que querendo ser visto pelos passantes para poder informar a hora certa. E marca também o dia da semana e do mês, com toda a clareza.
Mas que eu estou com vontade de erguer a tampa de vidro e adiantar "só um bocadinho"… Ah! Isso eu estou mesmo.
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