Ontem, assisti a um programa sobre "As Mães da Praça de Maio", da Argentina, um documentário tremendamente triste que fala sobre os presos políticos (em sua maioria jovens e atletas) que desapareceram durante o governo militar daquele país. Nele pude rever uma pessoa que conheci em minha infância: o corredor Oswaldo Soares – bicampeão da nossa São Silvestre, vencendo, se não me engano, uma vez no ano de 1960.
O grande corredor dava um depoimento sobre o triste assunto de prisões e desaparecimentos.
Veio então à minha lembrança um episódio que vivi quando tinha dez anos.
Naquela época o Sr. Soares era muito amigo do Sr. Mariconda, um italiano casado com uma argentina, Dna. Anna, e por sua vez este casal era muito amigo de meu tio Armando.
Como sabemos, a São Silvestre é um evento do último dia do ano e naquela época iniciava na Avenida Casper Líbero, no centro da cidade de São Paulo.
Tendo vencido a São Silvestre e passado o primeiro de ano com nossa família, o casal Soares foi convidado por meu tio a passar alguns dias no apartamento de meu tio Roque, que ficava na Praia Grande. Um lugar onde eu e meus primos nos acostumáramos a passar alguns dias das férias de final de ano.
O local era uma praia com poucas construções ainda. Na maioria, era apenas pelos moradores e poucos eram os apartamentos de veraneio. Era repleto de grandes areais, extremamente brancos e finos, onde os carros costumavam atolar.
Foram dias muito gostosos, pois na época um vencedor da São Silvestre era uma celebridade. E nós estávamos hospedando esta figura.
Nos sentíamos orgulhosos por isso. Todos que frequentavam o local, os que estavam veraneando ou não, vinham falar com a gente, curiosos para conhecer o "nosso herói".
Mas como tudo passa na vida, este fato acabou caindo no obscurantismo do tempo.
Assistindo ao tal documentário a que me referi no início deste texto, pude reascender a lembrança e vi como a vida tem percalços muito esquisitos. O grande corredor Oswaldo Soares, após ter levado um título de vencedor para o seu país, teve de enfrentar sérios problemas por causa da política. E após tantos anos, achando que nunca mais teria notícias dele, pude saber, por meio dos modernos veículos de comunicação, o destino e o que se passara com essa figura que conheci na minha infância.
O mundo é muito pequeno e dá muitas voltas.
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