Há um dito popular que diz: "o mundo dá muitas voltas". Numa dessas "voltas", reencontrei-me, depois de algum tempo, com o Adolpho Adduci, assíduo colaborador do site. Depois das apresentações de praxe, nos identificamos: ambos gostamos de "histórias antigas". Convidou-me a navegar pelo site, em que tive a oportunidade de ler suas crônicas.
Entretanto, uma delas me tocou mais profundamente, pois me fez relembrar os dias em que o Brasil jogava, participando da Copa do Mundo, em 1958, lá na Suécia.
À época, trabalhava e estudava em São Paulo. Trabalhava no Banco do Brasil, ali na Avenida São João, esquina com a São Bento, e fazia o Cursinho do Castelões, com o Professor Tolosa, ali na São Bento.
Mas, o que aconteceu? Os jogos tinham o início por volta do meio-dia aqui no Brasil, em virtude da diferença do fuso horário. As empresas liberavam os funcionários para irem "assistir" aos jogos. Assistir? Não, ouvir a transmissão pelo rádio. A televisão já existia, mas não com transmissão direta, ao vivo, em tempo real. Os jogos eram gravados em "tape" e transportados por avião e somente eram passados na televisão dois, três dias após.
Portanto, em tempo real, somente a transmissão pelo rádio. As transmissões eram precárias. Ainda não havia o sistema "via satélite". Eram deficientes, com muitos ruídos, acompanhados de chiados produzidos pelas estáticas.
Havia três emissoras que disputavam a preferência dos ouvintes: Bandeirantes, Pan-Americana (hoje Jovem Pan) e Difusora (do Grupo "Diários Associados", cujo proprietário era Assis Chateubriand). A Bandeirantes inovou. Apresentou duas novidades: no centro da cidade, em pleno Viaduto do Chá, instalou diversos balões inflados de ar, nas cores verde e amarelo. Esses balões estavam presos a uma corda e, lá no alto, se movimentavam, dançando ao sabor dos ventos. Presos a esses balões, eram colocados alto-falantes, que reproduziam as jogadas narradas pelos excelentes e inesquecíveis locutores esportivos Edson Leite e Pedro Luís.
À época, eram poucos os que tinham o seu "radinho portátil". Lembro-me que as pessoas se aglomeravam sob esses balões e ali ficavam com os olhos fixos naqueles objetos inflados que dançavam, imitando a bola imaginária que rolava de pé em pé dos jogadores, nos distantes campos da Suécia.
A outra novidade apresentada pela Bandeirantes foi a instalação de um painel luminoso, na Praça da Sé, local preferido para se comemorar os grandes acontecimentos. Ali se concentravam milhares de "espectadores", acompanhando a narração das jogadas, via rádio e que eram complementadas pela luz refletida por uma lâmpada que se movimentava, tentando reproduzir a posição da bola dentro do campo. Essa era a "televisão" de um passado não muito distante, quando aquela "bola virtual" se aninhava no fundo do gol adversário, a multidão explodia com o seu grito de gooool que estava preso na garganta de cada torcedor.
Hoje, faço um paralelo entre o "telão da Praça da Sé", daqueles idos tempos, com a telinha da televisão atual, esta transmitindo em tempo real, com a nitidez das imagens coloridas, captadas por mais de duas dezenas de câmeras, colocadas nos pontos estratégicos do estádio, reproduzindo a mesma cena, por diversos ângulos, enriquecidas com os fabulosos recursos do "slow motion" (câmera lenta), chegando ao requinte de congelar a imagem e virá-la em diversas posições, que é o chamado "tira-teima", mostrando se o jogador estava ou não impedido ou se a bola entrou ou não, isto é, se a bola ultrapassou ou não a linha fatal.
Brasil campeão… As comemorações, durante a noite, se deslocavam para a Avenida Ipiranga, no trecho entre a Avenida São João e Praça da República. Ali era o ponto de encontro, em frente aos cines Marabá e Ipiranga.
Ao lado do Cine Ipiranga, havia a Salada Paulista, uma casa que servia, a preços bem populares, uma salada de batata, acompanhada de uma salsicha. Depois da comemoração, aí estávamos com fome e íamos saborear a salsicha da Salada Paulista.
Depois, cada um tomava o seu bonde, com destino as suas casas.
Bons tempos, gratas recordações. Salve o São Paulo da década de 50. A capital ainda era uma cidade que proporcionava um ótimo padrão de vida aos seus moradores. Não havia problemas de violência, não havia o problema das drogas. Como meio de transporte urbano, a população se utilizava dos românticos bondes elétricos.
Que saudade, S A U D A D O N A.
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