Diário de uma artista nas ruas de São Paulo

O Natal já passou, mas lembrei-me deste fato ocorrido há quase vinte anos atrás, mais precisamente numa manhã de dezembro de 1991, quando alguns personagens bíblicos foram vistos no centro de São Paulo, no que parecia mais uma procissão. Contudo, observando-se mais de perto, víamos José, Maria em seu burrinho e os três reis magos.<br><br>Naquele final de ano de 1991, houve uma promoção de uma Secretaria de Estado pra reavivar o sentimento fraterno e o verdadeiro sentido do Natal. Assim sendo, São Paulo recebeu a visita daquele presépio ambulante numa bela performance de Natal, uma intervenção artística, parando o centro velho da nossa querida São Paulo.<br><br>A Virgem Maria, montada num burrinho de verdade, vinha à frente juntamente com São José, saindo da Praça da República, percorrendo a Rua 24 de Maio, indo até o Teatro Municipal. A princípio, as pessoas nas ruas não entendiam tal intervenção artística em pleno calçadão, e alguns até acharam uma idéia absurda. Contudo, logo se atinavam do assunto, fosse pela presença dos personagens, como também pelo texto elucidativo narrado num carro de som e ecoando entre os edifícios.<br><br>A repercussão foi muito boa, muitos aplaudiam e tantos outros até chegaram a acompanhar a procissão. O calçadão se transformou no caminho da peregrinação de Maria e José, que chegando ao seu destino, Belém, ou seja, no Teatro Municipal, formaram a imagem do presépio. A cantora Rosa Maria, que lá estava, entoou músicas que fizeram São Paulo estremecer com sua voz maravilhosa.<br><br>Entretanto, para um bom observador, a imagem que se via era bem antagônica, de um lado as lojas Mappin, ainda em pleno funcionamento na época, com um Papai Noel e seu megafone, instigando e apregoando o consumismo natalino, e logo do outro lado da rua uma silenciosa imagem bíblica tentando resgatar o verdadeiro significado daquela data festiva.<br><br>Enfim, naquele momento o público ficou meio que dividido, mas prestou bastante atenção ao evento, mas assim que tudo terminou, as pessoas voltaram para o seu cotidiano, e com certeza muitas para o mundo consumista que o Mappin oferecia logo ali…<br><br>E assim, aqui deixo uma indagação: uma imagem singela com sentimentos puros será sempre massacrada pela forca da mídia consumista???<br><br>Ah!! Andar no centro de São Paulo no lombo daquele burrinho me deixou com boas, mas doloridas lembranças.<br><br>e-mail do autor: [email protected]