O Sumaré e suas histórias dos tempos da Tupi

Depois de horas na produtora de som, aguardando a chegada dos locutores, as gravações e regravações, a mixagem, o ajuste da trilha, eu já não saberia distinguir qual das versões daquele spot de trinta segundos estava melhor.

O ouvido já não identificava sutilezas e eu estava lá pra isso: selecionar o melhor som, a melhor locução, o tom certo daquele comercial de rádio.

O pessoal da produtora era simpático e minucioso, o que me tranquilizava no caso de eu não saber mais separar o regular do bom, o bom do perfeito.

Foi nesse clima que aconteceu a magia dos sentidos. O mistério da memória.

Estava dentro do estúdio, junto da mesa de som, de costas para a porta, quando, do nada, ouço claramente a voz do tenente Rip Masters!

Aquela voz potente, cheia de autoridade e benevolência paterna, que comandava a ação no Forte Apache, contra índios e malfeitores, no Velho Oeste de "As Aventuras de Rin-Tin-Tin".

O túnel do tempo me jogou bem lá pra trás, no início dos anos 60. E eu claramente vi um garoto de corte de cabelo à americana, calça três quartos, camisa de mangas curtas e calçado Vulcabrás, sentado diante da enorme TV Capehart, importada, a válvulas, um caixotão enorme embutindo uma tela pequena, esverdeada, transmitindo em preto e branco.

Nessa Capehart eu assistia pela TV Tupi, canal 4, aos episódios de "As Aventuras de Rin-Tin-Tin", com o cabo Rusty, o sargento O'Hara, o pastor alemão mais valente do mundo e o tenente Rip Master. Era o western, com seus índios maus, bandidos impiedosos, mocinhas desprotegidas chegando em charretes, gente bondosa e engraçada como o sargento O'Hara.

E como eu gostava daquele Forte Apache, que representava a máxima proteção contra o perigo além de seus portões.

Tanto, que ganhei o brinquedo Forte Apache do meu pai, todo feito de madeira, desmontável, com cavalos, soldados e índios de plástico pintados à mão.

Na época, me lembro de que "As Aventuras de Rin-Tin-Tin" eram um oferecimento dos produtos Colgate-Palmolive, que acenavam com uma promoção que tirou muitas das minhas noites de sono.

Era preciso juntar algumas cintas pretas do maravilhoso sabonete Palmolive – o único feito com azeite de oliva, talvez por isso embalado em papel crepom verde oliva e lacrado com uma cinta preta. Ou então, algumas caixinhas do creme dental Colgate – na época, com uma única versão.

Você tinha que colocar as embalagens ou cintas num envelope com o seu nome e endereço, e mandar para a TV Tupi, para concorrer a um filhote do Rin-Tin-Tin e ao uniforme do cabo Rusty!

Tinha coisa melhor? Ganhar um filhote de pastor alemão da ninhada do Rin-Tin-Tin, ou então o uniforme original do cabo Rusty!

E lá ia eu e a molecada da Rua 2 – hoje, Paulino Longo – ao empório do Seu Júlio, na Alfonso Bovero, comprar sabonetes Palmolive e pasta Colgate pra juntar as benditas embalagens. A tentação de arrancar as cintinhas pretas dos sabonetes Palmolive do Seu Júlio era tanta que ele percebia e vigiava o estoque feito o Rin-Tin-Tin.

Os sabonetes e pastas comprados eram anotados na caderneta – é, naquele tempo, se comprava fiado e se anotava as compras numa caderneta, pra pagar no fim do mês. Comum como hoje é usar cartão de crédito em supermercado.

Minha mãe ficava louca de ver o quanto a gente estava comprando de sabonete Palmolive e pasta Colgate. Nunca em casa se escovou tanto os dentes e se demorou tanto no banho para a realização de um sonho.

Caso perdido: quem ganhou e levou o uniforme do cabo Rusty foi o Ernani, meu amigo e vizinho de frente. O filhote do Rin-Tin-Tin não deu as caras na nossa rua, pra infelicidade geral da molecada.

Túnel do tempo de volta para o futuro. Eu me virei, naquele estúdio, e só consegui dizer àquele desconhecido que entrava:
– Tenente Rip Masters!

Ele sorriu emocionado e disse: – Eu mesmo, você se lembrou de mim?

Ronaldo Batista, locutor e dublador original do tenente, estava ali na minha frente. Sua imagem não combinava com o personagem. Era já um senhor, diante de um publicitário trintão, que um dia foi aquele garoto paralisado de excitação diante da TV, quando ouvia o final da locução de abertura de "As Aventuras de Rin-Tin-Tin".

– Versão brasileira, AIC – São Paulo.

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