(Uma tragédia para rir. Afinal, no dos outros sempre é refresco…)
Para entender a minha narrativa é preciso ter em mente que: os imigrantes, longe de suas pátrias e das famílias, acabavam por adotar como família os vizinhos e os moradores do quarteirão. Temos então uma grande família a nos ensinar e educar. Uma mãe era a mãe de todos, com direito a zelar e a punir a criançada. Era o que eu definiria mais tarde como Comandos Para-Maternais. E, Deus! Como era bom sair à rua e sentir-se amado e amparado por essa multidão de mães, pais e irmãos.
O mês de junho, por muitas razões, era o mês das "vacas gordas": as festas juninas e o início das férias de julho, que praticamente começava no dia de São Pedro. Pontualmente, no dia 29 de junho, nós estávamos em férias.
Mas, de repente, todo aquele "fogo", aquela ansiedade de ser feliz, aquela alegria, começava a desaparecer no dia 1º de julho… É que as lembranças começavam a insinuar-se e a "contar coisas" de férias passadas. Parecia que as brincadeiras haviam perdido toda a graça; não havia motivação para nada. Crianças ansiosas, reunidas em grupos nas esquinas, sussurros monossilábicos; olhares angustiados, como os de quem procurasse ver alguma coisa, ou quisesse antever algo no vazio. Meninas lânguidas, com ares de "cansadas da vida", sentavam-se nos degraus dos portões, a corda de pular enrolada nas mãos, a bola e a peteca ao lado. Ficavam mudas, encostadas umas às outras. Qualquer barulho mais alto, ou diferente, fazia com que elas se sobressaltassem e fossem buscar outro lugar para ficar.
Era o terror se instalando sorrateiramente. Sabia-se de sua existência porque, parecia, levava embora todos os sons de risos, de palavrões e as cantorias da rua.
Os primeiros dias passavam cinzentos e a ansiedade nos tornava mais calados e irritadiços. Uma angústia quase concreta fazia-nos entender que o terror estava invisível entre nós e prestes a nos atacar.
Os adultos, na sua maneira de agir, davam-nos sinais de que a catástrofe se aproximava. Mães cochichavam umas com as outras, e, quando nos aproximávamos, elas não mudavam de assunto, como sempre o faziam. Interrompiam a conversa e mandavam que nos retirássemos, ao som da perturbadora frase: "Vai brincar! Não fica atrapalhando a conversa dos adultos.". Era um entra e sai de mães, uma na casa da outra…
Os homens conversando junto aos portões, sentados em cadeiras na calçada, cochichavam entre si e, gargalhando, nos apontavam. Quando entrávamos na venda para comprar o pão e o leite, os que estavam jogando a morra, víspora, dominó, palitinho etc., paravam e rindo nos diziam: "È arrivato il giorno del pentimento!" (É chegado o dia do Arrependimento!). E riam…
Tio Amedeo era mais explícito. Enfiava um caldeirão na cabeça e imitando o "Duce", marchava cantando a "Giovinezza". (*) O terror minava as nossas forças antes de nos atacar. Reduzia-nos a meras marionetes. A espera e a incerteza esgotavam em nós toda a capacidade de reação. Em alerta, abatidos e conformados esperávamos pelo ataque que viria. E veio numa manhã de sexta-feira.
Qual um demônio, o terror possuiu os corpos de nossas mães. E elas, enlouquecidas, saíram pela rua à procura dos seus pimpolhos. Corríamos feito louco para escapar, gritávamos, chorávamos e elas, cada vez mais enlouquecidas, agarravam qualquer criança e a seguravam fortemente. Afinal, todo mundo era filho de todo mundo. A situação era terrível. Mães descabeladas, sujas de pó, respirando forte, sentadas na guia da calçada, segurando entre as pernas uma criança aterrada berrando a pleno pulmão. Choro e gemidos. E vozes de mães chamando a Carmelona. E Carmelona veio. Tinha na mão uma garrafa e uma colher de sopa enorme. Era a imagem de um carrasco impiedoso. Vinha rindo e gritando: Chegou o dia do purgativo! Avançou.
Corpos infantis contorciam-se entre pernas e braços de mães. Mães suadas lutavam para manter as criaturas imobilizadas. De repente, uma mão apertava com força o nariz da criança. A criança, para não sufocar, abria a boca e a Carmelona despejava na goela do "bambino" uma colherada generosa de Óleo de Rícino…
Gigio, coitadinho, depois de engolir a sua colherada, escapou e, mais abaixo, caiu nas garras de outra mãe. Resultado: Foi brindado por Carmelona com uma segunda colherada e, só depois de dá-la, ela percebeu o erro e comentou em voz alta: “"Dio Santo", o "povverino" vai "cagá" até os olhos!”. Desatou a rir impiedosamente.
Depois da batalha, o demônio do Terror saiu de nossas mães. Consternadas, como que saídas de um sonho ou transe, começaram a nos abraçar, beijar-nos, e nós, chorando e esperneando, rechaçávamos qualquer contato.
Minha mãe me diz: "Não faça assim. É para o teu bem.". E eu fulo, respondi: "O "cazzo" que é para o meu bem!". E fiz um gesto com o dedo da mão. Chorando ainda, saí correndo.
O terror se foi. Deixou marcas na rua. Uma multidão de mães procurando os seus chinelos, correntinhas, brincos, tiaras, presilhas de cabelo; homens que, agachados, gemiam e choravam de tanto rir. As meninas, escondidas dentro de suas casas, em prantos, olhando pela janela por um instante apenas e desaparecendo, rumo ao destino de todos nós – o "caccatoio" (a privada).
Ao contrário dos meninos, em que o confronto era corpo-a-corpo, com as meninas o ataque era psicológico, do tipo: "Ou você toma a colherada, ou faço você tomar o vidro inteiro e lhe ponho fora de casa, no meio dos moleques, e tranco a porta.".
Meninos enraivecidos, chorando e batendo a cabeça nos postes, gritavam impropérios e maldições. Ainda na rua, vestígios da guerra: A garrafinha vazia de Óleo de Rícino – o preferido – das mães, claro! Vestígio que dava enjôo só de olhar para ele.
Mães satisfeitas comentavam a vitória, homens comentavam a batalha e se mijavam de rir, e nós, vítimas do terror, por muito tempo ficamos indo e vindo pela rua, sem coragem de entrar em casa, nem para almoçar. Aguardávamos as conseqüências da guerra.
E o primeiro a senti-la foi o Gigio – a grande vítima, atacado duas vezes na batalha. Uma dor aguda na barriga, uma corrida até sua casa… Não deu tempo. A "conseqüência" inundou-lhe o calção e escorreu pelas pernas. Depois dele a coisa degenerou. Parecia epidemia. Todo mundo correndo para o banheiro de suas casas. Alguns, com medo de não chegar a tempo e com um pendor naturalista, abaixavam o calção e adubavam o jardim. Outros, desprovidos de qualquer pudicícia, abaixavam o calção, acocoravam-se junto a um poste, ou muro, e faziam as suas necessidades. Eu entrei em casa e corri para o banheiro. Não deu tempo, e fiz no corredor mesmo.
Mais tarde, nós, quais zumbis, só conseguíamos ir até o jardim por alguns minutos, e rápido entrávamos, em busca do banheiro. Tio Amedeo chegou do trabalho. Entrou e foi logo dizendo às gargalhadas: "Entrei na rua e tive a impressão de que cagaram no mundo. A rua inteira "puzza" (fede)!". Olhou para mim, deu um "croc" na minha cabeça e foi dizendo: "Como tá bonito o Ciccio do tio! Tá até mais magrinho!". Olhei friamente para ele e disse em pensamento: "Affancullo!"…
Assistia à televisão quando a dor de barriga voltou. Corri para o banheiro e tio Amedeo, assoviando, com a toalha nos ombros, impediu a minha entrada: "Nò, nò! Primeiro eu vou usar e depois tomar banho.". Riu e completou: "Vai fazer no quintal ou no jardim.". E trancou a porta do banheiro. Lá dentro, para me provocar mais, começou a cantar: "Giovinezza, giovinezza. Primavera di bellezza…".
Foi a gota d'água! Vendetta! Sim, tio. Você terá a minha vingança! Segurando a barriga, fui para o quarto dele disposto a fazer tudo sobre a sua cama. Não fiz. Rápido mirei o par de sapatos marrom, couro de crocodilo e deixei sobre eles "o meu recado". Fiz questão de me limpar com a colcha. Vitorioso na minha "vendetta", saí do quarto pensando com satisfação: Hoje você vai namorar a tia Luísa, de botinão ou de chinelo…
Tio Amedeo saiu do banho, viu o que eu tinha feito e armou um escarcéu. Minha "nonna" foi ver o que acontecia e viu. Resultado: "Encheu a minha cara de alegria". Fiquei coradinho, coradinho. A imagem da saúde.
À noite, em torno da mesa, a "nonna" me põe na berlinda. Conta tudo para o "nonno" e para o meu pai. Só não apanhei do "babbo" porque a vovó disse que tinha feito o "serviço". O "nonno" pediu que eu me aproximasse, segurou-me pelos braços e cara-a-cara, olhou-me profundamente nos olhos – como se quisesse ver a minha alma. Suspirou e disse, abrindo um sorriso de orelha a orelha: "Franco cazzo! De todos os meus filhos, só o Amedeu, de todos os meus netos, só o Ciccio (meu apelido) se mostraram um "vero calabrese testardo" – ria gostosamente – "Mais um que não leva desaforo para casa.". Abraçou-me com ternura e beijou minha testa.
A "nonna", na expectativa de que o vovô me dissesse palavras duras, ficou possessa e destrambelhou a falar rapidamente, em italiano: "Isso! Estraga o menino! Dá os parabéns por ele ter sido mal-criado! Você, Amedeo, e ele são todos "farinha do mesmo saco"! Esse suja o sapato; Amedeu, briga com a namorada e "fà la cacca" (faz cocô) em cima do cachorro dela (**); você, em Limbade, briga com o teu primo e enche a porta da casa dele de estrume e, não contente, faz cocô na soleira. Que farinha do mesmo saco, o quê! Vocês são "é" a mesma merda!". E o falatório continuou, pois a "nonna", quando começava, não parava mais. E eu, ali, incomodado com aquele falatório dramático e, ao mesmo tempo, maravilhado de saber que eu era igual ao meu "nonno". Senti um orgulho imenso de ser neto do meu "nonno".
Tarde da noite chega o tio Amedeo. Eu levanto da cama e vou ao quarto dele pedir desculpas. Tio Amedeo disse que me desculpava, mas que eu merecia um castigo. Eu concordei. Ele então, bruscamente, pegou a minha cabeça e pressionou-a contra o seu próprio traseiro dizendo: "Veneno se combate com veneno!". E soltou um sonoro "pum" na minha cara. Eu, tapando o nariz, disse-lhe: "Testardo maledetto"! Ele riu e disse: "Testardo maledetto sei tu, stronzo. (Cabeça dura maldito é você, merdinha.). E, agora, vamos dormir que já é tarde.
Fui para o meu quarto, feliz por ter feito as pazes com o meu tio. Mas, um outro lado meu dizia que eu tinha que fazer alguma coisa para retribuir aquele "pum"… "Testardo, io? Nunca…".
Quase meia-noite. Aquela sexta-feira de terror estava chegando ao fim. Nela purgaram-se as crianças, purgou-se o passado do "nonno". E purgou-se a vida, pelo menos por mais um ano. Logo, logo, o mês de julho de 1957 viria bater à nossa porta. E que ele não fosse um "pum" dado na minha cara…
(*) – Meu tio era bem explícito na sua encenação. Imitava o Mussolini, com seu uniforme de guerra e cantava a "Giovinezza", que era o hino da Juventude Fascista. E, nos gestos do "Duce", titio insinuava o "convencimento" daqueles que eram contra o regime. Na delegacia, os "camisas negras" faziam o "do contra" tomar, à força, uma garrafa de óleo de rícino. Era tática comum purgar os inimigos do fascismo… Se uma colher de rícino é danosa, imaginem o estrago que faz uma garrafa…
(**) Na verdade, meu tio fez as necessidades sobre folhas de jornal e esfregou tudo no pêlo do Lulu da namorada.
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