Estava tudo tranqüilo. De repente, o rock and roll explodiu, com estardalhaço. E isto foi, rapidamente, acusado pelos jovens. O que eu sentia, nos inícios dos anos 60, era só a superfície do iceberg. O que parecia um modismo passageiro evoluiria até uma revolução nos costumes, moral e política.
Rápidamente, ou talvez já no início, o sistema reciclaria todo esse furor, transformando-o em artigo de consumo, absorvido pelo próprio status quo. Mas, então, estávamos só sob o impacto inicial, sem direito a críticas.
Lembro-me de minha classe, no colegial. Embora ali ninguém fosse rico, ou "transviado", como se dizia na época, aumentava dia a dia o número dos que vestiam calças Levi´s, Lee ou a mais modesta "Rancheiro". Que eram, creio, vendidas na Sears Roebuck, lembram? Ao ponto do jovem professor de história reclamar que aquilo ali mais parecia uma oficina mecânica.
Marlon Brando, com seu "The Wild One", James Dean e outros eram os nossos heróis de então. No estúdio de desenho, em que eu trabalhava de dia, surgiam encomendas de flâmulas da gang dos "Didões", famosos por suas proezas, hoje impossíveis, como cruzar na contra-mão o túnel 9 de Julho.
Alguns deles chegaram a comparecer ao estúdio, com seus gomalinados cabelos jaquetão, e suas blusas de couro negro. Mas na realidade não pareciam, no fundo, diferir muito de nós, com seu jeito tímido e desajeitado. Então eram esses os famigerados "Didões"?
Na verdade, havia uma enorme diferença: o dinheiro, coisa que na época não me parecia inacessível. No fundo, confiava em meu talento e no futuro. Mais tarde, sentiria a real dificuldade que era consegui-lo, em volume apreciável.
Na época, uma motocicleta parecia um requisito fundamental no status de um verdadeiro playboy. A pé, para as garotas, não se estava com nada. Meu irmão e eu pensamos primeiro numa lambreta, e quase a compramos de um vizinho metido a "transviado".
No fim, acabamos comprando uma moto Jawa, tchecoslovaca. Tinha pouca potência, mas um belo desenho, com seu painel parecendo uma cabeça de saúva, e da mesma cor. Era de um casal de alemães e tinha pouco uso.
Logo de saída, um pequeno inconveniente: eu não sabia andar de moto! Começamos a treinar, na Pça. Charles Miller, e logo os desastres começaram a acontecer. Uma vez bati de frente numa guia, quase estourando o pneu. Logo a seguir, num carro estacionado.
Finalmente, peguei o "jeitão" da coisa, conseguindo dominá-la e estava até fazendo corretamente os "oito", manobras circulares. Mas muito longe de ser um ás no guidão: certa vez fomos ao Ibirapuera, centro das gatinhas loucas por moto. Parti para uma larga volta pelo parque, fui me entusiasmando e aumentando as marchas. E me tornando descuidado.
Ao fazer uma curva á esquerda, para uma trilha lateral, derrapei na areia, e lá fui com a moto para o chão. Essas coisas só se aprende acontecendo. Não aconteceram perdas, nem grandes danos, mas risquei o visor de plástico, novinho, com que meu irmão equipara o "bólido".
E terminou aí minha breve carreira motociclistica. Não me atrevi mais a pegar no guidão, certo de minha incapacidade. Achava até que não conseguiria guiar, também,um automóvel. O que foi desmentido, anos depois, com a descoberta de minha habilidade como motorista.
Para aumentar meus temores da época, fomos a Santos, com meu irmão Ivan dirigindo. Na volta chovia, e na esquina da Av. do Estado com R. do Gasômetro um carro imprudente enganchou em nossa barra de proteção lateral, e fomos beijar o chão molhado.
Ainda tivemos sorte; sem ferimentos, fui para casa, deixando a moto, meio torta, num posto de gasolina. Só no dia seguinte comecei a sentir algumas dores, que logo passaram.
Pobre moto! Foi para uma oficina de esquina da R. Barra Funda. Estava em conserto quando um carro descontrolado entrou pela parede, danificando-a mais ainda. Era muito azar!
Mas, pelo jeito tinha sete vidas, como um gato. Lembro-me de meu irmão, tempos depois, entrando com ela na garagem de nossa nova casa, no Planalto Paulista. Mais tarde vendeu-a e nunca mais quisemos saber de motocicletas. Mas sempre as admirei, acho bonitos os designs arrojados e os poderosos motores.
Mas voltar a dirigir, ainda mais nos nossos dias, aqui em São Paulo? Com as ruas coalhadas de motoboys e assaltantes de motocicleta?
Já de carro, escapar ileso é uma proeza invejável. Então nosso caso foi mesmo uma "febre de juventude", nome dado em português ao belíssimo "American Grafitti", filme de George Lucas, que trata do mesmo tema: a juventude "transviada" dos anos 50-60. Da qual tentei participar, mas não deu. Desculpem.