Bom Retiro em capítulos – parte II – A família Thomás

Narrado por Luiz Sérgio Thomás

"No decorrer do mês de junho de 1878, aportava em Santos, após 36 dias de estafante viagem de navio, o jovem Pietro Pacífico Thomasi, natural de Lático, pequena vila nas fraldas do Monte Montesi, nas proximidades do Monte Cassino, na Itália, com a finalidade de trabalhar e ganhar a vida, como os irmãos Giovani Batista Thomasi, que faleceu solteiro em Melbourne, na Austrália, ou de Rafaele, que foi para Buenos Aires, na Argentina, onde constituiu família e morreu. Ele, Pietro Pacífico Thomasi, preferiu viver no Brasil."

"Após Santos, Pietro subiu a serra da Mantiqueira, num velho trem de passageiros, apinhado de imigrantes, e desceu na Estação da Luz. Diante do Jardim Botânico, via Rua dos Emigrantes, até a Hospedaria. Ele andou por uma rua estreita até chegar numa pequena hospedaria, situada na Rua Areal, pertencente ao oleiro David Zadra e sua mulher, dona Pietrina, onde se hospedou."

"Alguns dias depois, ele verificou que ali havia várias olarias. Trabalhadores e oleiros o levaram para conhecer o trabalho de cada olaria, tornando-se não só oleiro como um arguto conhecedor do trabalho. Assim, falou com dona Pietrina – e esta ao marido, e empregaram Pietro na olaria que o casal possuía. Pietro, com imensa vontade de trabalhar, esperto, ativo, conquistou um bom lugar na olaria, tendo sido feitor-chefe. (Ele viera da Itália com algum dinheiro, depois de ter vendido parte da herança a um patrício)".

Recordações do castelo

"Pietro, que fizera economia, e com alguns que possuía da venda da herança na Itália, adquiriu, em 1880, um lote de terreno na Rua Sólon até o Vale do Tibagy, num total de onze mil metros quadrados. No terreno que fechou, construiu o forno de cozer tijolos, com pipas, cobertura para secagem de tijolos, as telhas, casinhas para operários, cocheirão, carroça e tudo o que era necessário para uma olaria, para abastecer os operários e famílias de vizinhos. E logo tratou de constituir família."

"Assim, nas andanças a cavalo, para a negociação da venda de madeira, vendeu materiais também para o Seminário da Glória, nas margens do córrego Anhangabaú, onde atualmente está o prédio dos Correios de São Paulo. Ali, conhecendo a irmã superior, falou, com meia-vergonha:

– Não há alguma moça que queira casar comigo?

– Sim, Pietro. Passe daqui alguns dias, que vou verificar.”

"Dois dias depois, Pietro passou. E foi-lhe apresentada a moça escolhida, com licença de casamento do reverendíssimo padre Chico, da paróquia local. Órfã de pai e mãe, a moça, dona Deolinda, estava ali internada, com sua irmã Herculana, com ordem do governo da província"…

É claro que eles casaram – e que foram felizes, e que desta união nasceram Luiz Sérgio – o narrador da história – e Cristina Maria, que faleceu a 11 de julho de 1905, com vinte anos. A mãe, dona Deolinda, morreu a 24 de março de 1894, num domingo de Páscoa, no dia em que Cristina Maria nasceu…

Agora, a casa dos Thomas foi o primeiro sobrado do Bom Retiro, fez furor, há tanto tempo. Alcina, a filha de seu Luiz, não esquece o sobrado um momento. O sobrado era conhecido muito antigamente como um castelo. O castelo do Bom Retiro.

Em tempo: por um erro do cartório, como sempre acontecia, os Thomasi passaram a ser simplesmente Thomas.

Recordações de Dona Alcina

Eu sonho sempre com aquela casa.

Era um sobrado de três andares.

Todos achavam tão bonito!

E como era de esquina

Tinha sacadinha de ferro…

Quatro sacadas.

Era tão antiga

Que o banheiro ficava lá fora,

Como meu avô construiu.

Os amigos chegavam –

E não queriam ir embora.

A gente esperava o bonde na sacada.

Dava tempo de correr e pegar o "53".

Tinha uma sala de piano.

E o piano era alemão.

A casa era nossa vida, nosso sol, nossa alegria.

Lá, casamos, até.

E tinha um sótão estilo suíço,

Com livros, objetos, coisas engraçadas.

Todo mundo queria ir para o sótão.

Mas era difícil subir,

Tinha que pôr a mesa e a criançada gritava

Gritava e acabava subindo por lá

Sonho que a gente está na casa,

Que minha mãe está viva; e

cheia de alegria,

E que ela abre as panelas, os

Trinquinhos de ferro, e

O sol entra – e a gente acorda.

Mas, hoje, eu acordo, não estou mais lá"

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