Esta se passou comigo em 1957. Tinha então sete anos e já estava frequentando o primeiro ano escolar num colégio cujo nome era "Ateneu Tiradentes", na Rua Orissanga (Mirandópolis). As manhãs de São Paulo, naquele tempo, cheiravam a café fresco, amanhecia nublado (sinal de dia de sol) e era tranquila. Tão tranquila que as crianças só iam acompanhadas de seus pais no primeiro dia de aula, depois iam e voltavam sozinhas para seus lares, sem perigo algum. Belos tempos!
Numa daquelas manhãs, seguia a caminho da escola como de rotina. Morava na Rua das Camélias, virava a Rua dos Jacintos, cruzava a Avenida Senador Casemiro da Rocha para entrar na rua da escola em que estudava. Mas ao chegar nessa avenida, logo na esquina com a rua que caminhava, deparei com um movimento de pessoas. Creio que era um grupo de aproximadamente seis homens, que observava de perto um carro parado com a porta aberta. Curioso como sempre, logo me aproximei do grupo e vi, pela primeira vez na minha vida, como o ser humano pode ser violento… Foi o meu primeiro contato com a realidade cruel da vida que vivemos. Lá estava o corpo de um homem que tinha sido baleado dentro de seu carro. Os adultos assustados nem notaram minha presença.
Apavorado com tamanha violência, segui meu caminho, pois minha parada no local havia me atrasado… Entrei na escola e durante a aula não consegui afastar meu pensamento da cena violenta que havia visto.
Ao voltar para casa comentei com meus pais o acontecido. Eles desconversaram, naquela época não era costume apresentar a realidade nua e crua para uma criança.
Nunca soube o que ocorreu. Nunca soube o porquê daquele homem ter sido morto. Nunca me deixaram ler o jornal que noticiou o fato, pois uma criança tinha que manter a ilusão da vida.
Hoje comparando os fatos, vejo que a violência de São Paulo não cresceu, é a mesma. Apenas as pessoas é que são diferentes. Os adultos, não sei se por tanta correria em suas vidas, deixaram de lado a beleza de acreditar que durante a infância os seres humanos devem manter a ilusão. Hoje tudo é noticiado da forma mais cruel possível. A imprensa sabe que grandes tragédias vendem. Qualquer criança, seja de qualquer meio, tem os fatos apresentados no seu colorido mais triste.
Hoje vejo que São Paulo é mesma cidade. Infelizmente, nós é que mudamos… Que pena!!!
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