Cenas da vida real?

Pelos idos anos de 80 eu fui apresentada ao que se tornou minha paixão: o teatro. Porém, na época, era mais um hobby, pois o meu ganha pão mesmo era o trabalho diário para a Secretaria de Estado do Menor, hoje Assistência e Bem Estar Social.

A minha locação era na Vila Penteado, num dos circos-escola, projeto que já citei aqui no site num texto anterior datado de 08/09/2008. Enfim, entrava às oito da manhã e saía às cinco da tarde, num dia-a-dia repleto de atividades, pois lidava com crianças e adolescentes na área de teatro e recreação.

Desgastava-me muito, física e mentalmente, o que ao final do dia me deixava um bagaço, contudo ainda arranjava energias pra sair dali e ir ate ao Teatro Markanti, ali na Bela Vista, onde ensaiava e onde cheguei a participar de alguns espetáculos teatrais.

Assim sendo, eu finalizava o meu dia lá pela meia-noite, num total de umas dezoito horas no ar, pra no dia seguinte começar tudo de novo.

Com um ritmo destes, eu tinha de tirar uns cochilos aonde pudesse, no ônibus, no metrô, ou até antes de começar os ensaios.

Bom, tudo ia muito bem, quando encenando o espetáculo "Teia de Aranha", de Agatha Christie, eu cometi uma gafe. O espetáculo era uma trama de mistérios, assim como é o mote da autora citada acima, mas até aí nada de novo. Neste espetáculo havia uma cena específica em que eu devia estar dormindo, para que o ator Decio Gentil, suposto assassino, entrasse pra tentar me matar, contudo eu teria de me mexer e acordar pra assustá-lo e, assim, ele saía de cena e eu, logo em seguida, levantava e dizia uma fala e saía de cena. Também nada de anormal em se tratando de teatro.

Aproveito aqui para fazer um aparte, só pra lembrar que naquela época os teatros faziam sessões de quinta a domingo, sendo duas sessões aos sábados.

Bem, penso que vocês já deduziram o que vem a seguir. Numa segunda sessão de um sábado, lá pelas tantas, no dado momento da minha cena, o ator entrou em cena com o travesseiro pra me sufocar, se aproximou de mim, tudo como no ensaio, e foi se aproximando ainda mais, que era a deixa pra eu me mexer e acordar e… Nada! Eu não me mexia, e ele precisava achar um motivo pra sair de cena; fingiu que escutou um ruído e fugiu. Pois é, fiquei lá euzinha em cena, dormindo de verdade, e os atores cochichando na coxia (bastidores) pra saber como iam me acordar.

Até que uma das atrizes, Vanice Pedrazzini, entrou improvisando falas e gritando pra eu acordar. Agora, imaginem eu acordando no meio de um espetáculo e olhando meio sonolenta para uma platéia atenta e pensando o que este povo todo está olhando pra mim?

Nos primeiros trinta segundos eu não sabia onde estava e o que devia fazer. A Vanice me empurrando pra fora de cena, e eu ainda tentando entender o que havia acontecido. Quando me dei conta que dormi realmente em cena fiquei estupefata, joguei uma água no rosto e continuei o espetáculo até o final.

O público parece que não percebeu nada, mas com certeza a nossa diretora Elvira estava lá puxando os cabelos e esperando me dar uma bronca, o que veio logo após os aplausos da platéia.

O cansaço me venceu aquela noite e cochilei em cena, o que, levando para o lado irônico, foi uma das minhas melhores interpretações, uma das mais verídicas, e ninguém pode negar que me sinto como se estivesse "em casa" quando piso num palco.

Bom, fiquei muito chateada na época com o sucedido, porém tudo se diluiu entre brincadeiras e piadas entre os atores ao longo daquela temporada, e vinte anos depois já me refiz deste susto e continuo fazendo teatro.

Entretanto, o Markanti não existe mais; teatro pequeno no tamanho, mas um grande incentivador da cultura teatral. Na época, Elvira e Afonso Gentil foram os mecenas para os grupos amadores, abrindo espaço pra muitos jovens sonhadores, inclusive esta que aqui que acabou de confessar uma gafe pra lá de teatral.

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