Mal de família

Estava trabalhando na Companhia Brasileira de Colonização, cujo escritório ficava na Avenida Ipiranga, 913, bem em frente ao Edifício Copan, aí surgiu uma oportunidade de ser transferido para o interior, isso lá pelos anos de 1965. Aceitei de pronto.

Dois dias após, logo cedo, com minhas malas, peguei um trem na Estação da Luz, da Cia. Paulista de Estradas de Ferro, comprei uma passagem de Pulmann e fui todo contente para a cidade de Santa Ernestina/SP, localizada a 350 quilômetros da cidade de São Paulo, onde fui trabalhar em uma usina açucareira.

Naquela ocasião, o interior era muito diferente do que é hoje. Nas fazendas existiam as colônias dos empregados com vinte a trinta casas, igreja, armazém de seco e molhado, ambulatório médico, salão refeitório, salão para festas, campo de futebol e bocha. Era tudo muito bem organizado.

Pois bem, no dia em que cheguei fui morar na casa sede da fazenda. O gerente da usina, Dr.Assunção, que já conhecia da cidade de São Paulo, onde tinha trabalhado em outra empresa do mesmo Grupo Crisval, concessionária de ônibus Mercedes-Benz, que ficava na Rua Tabor, no bairro do Ipiranga, e que também tinha sido transferido para trabalhar na Usina.

Por volta das vinte horas, nos chamou e pediu para pegar a caminhonete e socorrer em uma das colônias uma senhora que estava passando mal. Como não conhecia o caminho, ele pediu para o balanceiro Manoel me acompanhar. Quando cheguei à casa do empregado, saiu o marido e a senhora que estava doente, entraram na caminhonete, o marido sentou no meio, e a esposa, perto da porta.

A distância entre a fazenda até a cidade de Taquaritinga (estrada de terra – nos dias de hoje é toda asfaltada) era de vinte quilômetros, mais ou menos.

No trajeto perguntei ao marido o que sua esposa tinha, ele falou que era mal de família. Eu fui pensando que doença era essa, pois não tinha ouvido falar na cidade de São Paulo dessa doença. Fui matutando em meu pensamento da tal doença, cada buraco que passava a mulher gritava de dor, o balanceiro que estava na carroceria ia indicando o caminho e comendo aquele poeirão da estrada até a cidade de Taquaritinga.

Só fiquei sabendo da tal doença quando cheguei a Santa Casa. Na porta, a senhora deu à luz um lindo menino, e essa era a doença “mal de família”: gravidez.

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