(Anos 60)
– Onde foi que enfiei o diabo do documento?
Na preguiça de pegar o banquinho, fui tateando o maleiro. Tateia que tateia, repentinamente algo desaba sobre a minha cabeça: um velho álbum de fotografias, que bate em mim e cai ao chão, espalhando as fotos que estavam soltas dentro dele. Pensei irritado: "Preciso colar essas fotografias antes que se percam.".
Fui juntando uma a uma, separando por tamanho, coloridas e em branco e preto e… E como acontece àqueles que, por qualquer que sejam as razões, estão a manusear um álbum, esqueci o documento que procurava e ative-me às fotos.
Fotos dos anos 50: fotos no aeroporto, no Viaduto do Chá; fotos de estúdio, em pé, sentado; fotos do Grupo Escolar – aquelas com uma mesinha, um globo terrestre e o mapa do Brasil ao fundo. E fotos com as turmas do 1º ao 4º ano. E, meu Deus! Aquela foto de primeira comunhão pareceu-me tão surreal. Eu em terno azul-marinho, laço de fita branca na manga do paletó, catecismo, vela e terço na mão… E a cara de culpado por ter mordido a hóstia… Também, que mais eu poderia fazer. Naquele tempo ia-se à 1ª Comunhão em jejum… Surreal aquele Cristo pintado em tela, ao estilo dos anos 30, de cálice na mão oferecendo-me uma hóstia enorme enquanto eu, ajoelhado no genuflexório, sentia a minha barriga roncar cada vez mais alto. E as fotos do basquete, das festas caipiras, dos aniversários, do dia do recebimento do diploma.
E, claro, as malditas fotos dos Carnavais: Pierrot, aos cinco anos; Arlechino, aos seis; chinês, aos sete; pajem, aos oito; Zorro aos nove e Batman aos dez. Aos onze, sob ameaça de suicídio, ameaças acompanhadas de um monte de palavrões, recusei-me a vestir a fantasia de mosqueteiro e aquela peruca horrível de cachinhos. Daí em diante minha fantasia foi de malandrinho: calça branca, camiseta de algodão listada; apito no pescoço, pandeiro e reco-reco (tudo de plástico) na mão. E saco de filó com confetes e serpentinas e um tubo metálico do lança-perfume Rhodocilíndrica.
Fotos dos anos 60: no ginásio, basquete, aniversários, festas caipiras, bailinhos, férias na praia e em outros estados; colação de grau do ginásio, colação de grau do clássico; fotos "muito loucas" do cursinho, muitas fotos do meu baile de formatura… Saudades…
Fechei o álbum sentindo um misto de prazer e tristeza. Tristeza que acabou quando vi uma foto caída sob a cadeira – a única que eu não havia recolhido. Olhei e dei uma sonora gargalhada. Eu, eu mesmo, aos dezoito anos, em uma festa de aniversário. Eu, em pé, olhar distante (que na verdade era olhar de um míope que se recusava a sair para as festas usando óculos), calça Saint-Tropez verde, justíssima, com boca-de-sino, camisa branca com babados escondendo os botões (eram moda as camisas de babados, de rendinha, com nervuras), cinturão de 8 cm de largura e um fivelão de 10 cm. Sapato mocassim na cor vinho, com uma lingueta enorme, encimada por uma fivela trabalhada. O salto "carrapeta" acrescia 3 cm aos meus 1,80 m de altura.
Meu Deus! Preciso esconder essa foto!… Preciso esconder o álbum!!! O que a gente não faz para ficar na moda. Moda que com o passar dos tempos vira ridículo… Eu mereço. Tenho de pagar pelos tempos em que pedia aos amigos: "Vai lá, pega o álbum da sua família, para a gente rir um pouco.". É, o crítico mordaz de outros tempos virou criticado (isto se alguém pegar o meu álbum).
Voltando ao assunto, a gargalhada não foi provocada pela foto ou pela indumentária grotesca que eu trajava. A roupa trouxe à memória um episódio hilário entre os tantos da minha juventude. E a roupa esteve presente num dos últimos que vivi: caso das Marias gasolina e dos pés-de-chinelo.
Não sei quem inventou essa moda. Sei que apareceu e desenvolveu-se feito bola de neve.
A causa eram as ditas Marias gasolina – e parece que a maioria das "minas" o era. Se você tivesse carro, estava com tudo. Se não, você era esnobado e condenado ao ostracismo.
O efeito: os pés-de-chinelo – entenda-se os sem carro – desenvolveram um plano mirabolante para "ferrar" as tais marias.
Como numa tática de guerra, muito bem arrumadinhos, os pés-de-chinelo iam a um bailinho – sempre distante do bairro em que moravam. Seguiam o lema: sou turista e moro longe. Os grupos dos pés usavam "nomes de guerra". A uma quadra do bailinho, os pés tiravam do bolso um flaconete contendo gasolina, abriam e passavam um pouco no pescoço e nas mãos. Tiravam do bolso um molho de chaves – geralmente chaves de volkswagen – e iam balançando o chaveiro até a entrada do baile. Ao tilintar do chaveiro, as Marias gasolina chegavam em bandos e a conversa desenvolvia-se assim:
– Você tem carro?
– Sim…
– Que marca é?
– Fusca.
– Você tá cheirando a gasolina…
– Tive um probleminha com o carro, mas já está resolvido.
– Ah, tá… Você quer dançar comigo?
– Tudo bem, vamos lá!
Nesse ponto as Marias começavam a competir entre si. Sim, porque todas querem dançar com o rapaz do Fusca. E, claro, o rapaz do Fusca não se faz de rogado. Vai dançando, amassando, se esfregando. E a Maria, nem aí, se entregando e falando baixinho na orelha do rapaz do Fusca:
– Cê mi leva pra casa?
– Claro! Onde cê mora?
– Em Carapicuíba… Longe, né?
– Que nada! Moro perto de lá…
E a dança continua. A "mina" dando o maior "mole", dança até o fim do baile, para despeito das amigas invejosas.
Findo o baile a "mina" diz:
– Peraí! Vou "retocar a maquiagem" e pegar a minha bolsa.
– Vai sim, enquanto isso vou pegar o carro que está no outro quarteirão e te espero na porta. É um Fusca cereja. Tem um "Mug" pendurado no espelho retrovisor…
– Só a cor basta – diz a "mina", com um sorriso sensual -, reconheço você até no escuro…
– Pôxa, que coisa bonita você me disse. Não demora não. Vou estar te esperando com muita ansiedade… (um beijinho rápido nos lábios da "mina")
– Demoro não… Vou correndo.
Ela vai "retocar a maquiagem" e o rapaz do Fusca vai na direção da porta. Sai, segue em frente, dobra a esquina e sai correndo por uns três quarteirões. No ponto, pega o ônibus para a cidade.
E lá vou eu – o pé-de-chinelo – rindo intimamente da cara da Maria gasolina. Que devia estar lá na porta do baile esperando. E sofrendo a gozação da outras Marias.
Mais tarde, no barzinho próximo de casa, nós, os pés-de-chinelo, contávamos as nossas histórias. E ríamos até as lágrimas…
Ah! Delícia de pecados e pecadilhos que nos dá a juventude. Sei que você que usou um anel ou um pingente de brucutu vai me perdoar… Será que alguém ainda se lembra o que é um brucutu? Lembram o que é um "Mug"…
Como eu sou o tal "rapaz do Fusca", quem acertar vai passear comigo no meu Fusca, com direito a ouvir meus compactos na minha vitrolinha de carro… E se demorarem a descobrir, já terei trocado a vitrolinha por um gravador a cartucho.
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