Uma sincera despedida.
Um triste e doloroso epílogo, registrado de forma brilhante por um amigo fiel, enaltecendo a figura imputável de um respeitado cidadão paulistano.
O homenageado, digno dirigente esportivo, não só brilhante em suas atividades frente ao São Paulo Futebol Clube, como no seu desempenho profissional, granjeando simpatias e amizades, no cuidado que sempre teve em pautar sua existência dentro de um critério rigoroso de hombridade e honestidade, respeitando a todos e se fazendo respeitar, não por imposição, mas por méritos alcançados, que só as grandes figuras de nossa respeitável sociedade primam em destacar.
O homenageante, indiferente à repercussão de seu texto, sentiu-se no dever de homenagear o amigo, fazer valer a preservação da memória de uma figura que, na intimidade de sua amizade, não ser de bom alvitre ficar apenas na sua lembrança.
Abaixo, na íntegra, os cinco atos finais de uma existência que, após sua leitura, vamos ter certeza da avaliação que podemos fazer dos primeiros capítulos da vida de um homem, mesmo sem conhecê-lo desde o berço, que fizeram chegar a esse epílogo.
Seu autor, Rodrigo J. O. Pinto de Campos – "Rodrigão"
HOMENAGEM EM CINCO ATOS
I
Eram quase 17h do domingo, 23/11/08, quando bati à porta do apartamento 91 do edifício situado na Rua Hungria, 720. Já tinha estado ali dezenas de vezes, mas aquela seria diferente. Fazia vinte dias que o Dr. Marcelo tinha sido operado. Fazia vinte dias que ele jogava a partida mais importante da sua vida. Marcelinho, desde então, se mostrava mais sério, mais circunspecto e menos falante. Eu, apesar da minha postura de ser o menos invasivo possível, telefonava diariamente. Começava a conversa por um tema futebolístico ou pessoal qualquer, para não parecer chato, mas invariavelmente introduzia a pergunta antes de desligar: "e seu pai?". A resposta, sempre o mais lacônica possível — "tá estável" —, poderia ser interpretada de várias formas, não necessariamente excludentes, mas sim complementares. Meu amigo queria, a um só tempo, tocar as coisas do dia-a-dia e não alimentar pensamentos negativos. Não me parecia uma tentativa de fuga, mas apenas e tão-somente uma atitude madura, misto de consciência da gravidade da situação e necessidade de dar andamento à rotina.
Marcelinho abriu a porta. Meus olhos, inevitavelmente, passearam pela sala. Correspondências, revistas e jornais se amontoavam sobre a bancada. Na mesa de trabalho, a pasta do Dr. Marcelo, envelopes, contas e papéis em geral compunham um cenário que me comoveu. A impressão era de que ele havia viajado — daí o amontoado de cartas e periódicos — ou tinha saído, apressado, para o São Paulo ou para o Jockey — e, por isso, deixara a papelada e sua maleta sobre a mesa.
Fomos direto para o quarto. O jogo estava para começar. Vasco x São Paulo, no Rio. O árbitro proclama um minuto de silêncio. Todos os jogadores tricolores usam uma tarja preta na manga das camisetas. Antes que o repórter informe o porquê do luto, Marcelinho, num típico rasgo de sarcasmo e ironia, me diz: "morreu o Fulano de Tal, conselheiro do clube. Já é o terceiro depois que o papai se internou. Pelo menos, esse era da oposição.". Sorriso amarelo de parte a parte. A bola rola.
Dr. Marcelo gostava de ver os jogos sozinho. Marcelinho e os amigos ficavam no quarto ou no escritório, e ele, lá dentro, isolado. Por algum tempo, entre 2006 e 2008, um fato pitoresco marcou essas ocasiões. Apenas a TV do Dr. Marcelo tinha sinal digital — o que, além das benesses de praxe, trazia um ônus: o "delay" em relação ao sinal analógico. Ou seja, na TV dele, tudo se passava de três a cinco segundos depois dos demais aparelhos da casa. Em virtude disso, instaurou-se um código de conduta inusitado: Marcelinho e seus amigos só podiam gritar "pênalti", "gol" etc., após passado esse pequeno intervalo de tempo, para que o Dr. Marcelo não soubesse, antecipadamente, o desfecho dos lances capitais das partidas. Na maioria das situações, todos conseguiam cumprir as determinações; contudo, como é próprio do futebol, havia momentos nos quais era impossível obedecer-lhas. Nessas ocasiões, então, surgia, do corredor, um grito que ecoava com força e nos ruborizava a todos: "Pô, Marcelinhoooo!".
Naquele domingo, 23/11/08, vencemos o Vasco por 2 a 1. Mas havia um vazio esquisito no ambiente. Um silêncio ensurdecedor. Os gritos de gol eram contidos. No intervalo e no final da partida, não fomos brindados com os comentários do Dr. Marcelo. Marcelinho tinha uma certa pressa. Precisava voltar ao hospital para visitar seu pai.
II
O sábado seguinte, 29/11/08, transcorria normalmente. Estava dirigindo na República do Líbano, por volta das 15h, quando recebi ligação do Marcelinho. Como em todas as vezes ao longo do mês, atendi um tanto apreensivo. Mas os assuntos eram leves, próprios de uma tarde primaveril como aquela: “Você já conseguiu comprador para os ingressos do show da Madonna que a minha irmã quer vender?"; "Amanhã, precisamos chegar mais cedo ao Estádio. Chegue às 15h na minha casa.". Ufa, amenidades e futebol eram os assuntos da chamada. Mas, antes de desligarmos, como de hábito, eu puxei a conversa: "E o Dr. Marcelo?". "Deu uma piorada, a pressão tá muito alta, mas agora ele tá estável.". "Até amanhã à tarde, então.". "Abraço".
Desde o nascimento de João Pedro, os sábados têm sido dias intensos. A folga da babá e a vontade de descontarmos as horas de ausência durante a semana nos deixam moídos. Naquele 29/11//08, não foi diferente. João Pedro dormiu por volta das 21h30min e, minutos depois, eu e Cristiana já estávamos quase dormindo também. O dia seguinte prometia: almoçar bem cedo, levar minha irmã para fazer prova do vestibular da PUC, levar o João Pedro numa festinha de aniversário em buffet infantil e, claro, ir ao jogo no Morumbi eram algumas das atividades programadas. O cansaço, de um lado, e esse mosaico de compromissos, de outro, embalaram rapidamente nosso sono.
III
Acordei por volta de 2h da madrugada. Estava com sede. Levantei-me. Antes de entrar na cozinha, notei que o celular da Cris, em cima da mesa de jantar, apitava. Vi o aviso de "bateria fraca" e o desliguei. Ato contínuo, dei-me conta de que o meu aparelho estava ao lado e resolvi, inconscientemente, ver se havia alguma mensagem ou ligação perdida. Naquele instante, meus olhos se arregalaram. Duas chamadas perdidas: "Aitan" e "Gabi Claro". Três mensagens de texto: "Aitan", "Gabi Claro" e "Pedro Barata". Não precisei abrir a primeira delas para saber do que se tratava. Depois de um combate duro, durante o qual havia bravamente resistido, o Dr. Marcelo sucumbira. Corri para o quarto. Acordei a Cristiana. Tomamos banho e nos vestimos rapidamente. Em menos de meia hora estávamos no 4º subsolo do Hospital Sírio Libanês.
Quando chegamos, senti-me reconfortado. Havia muitos amigos do Marcelinho ali ao lado dele. Abraçamo-nos. Deixei que fizesse todas as piadas de praxe comigo, notadamente as de caráter etário. Não retruquei. Se ele precisava relaxar de alguma forma e aquela era útil, ótimo. Os verdadeiros amigos, dentre outras coisas, devem servir como válvula de escape dos que passam por situações tão difíceis.
Por volta de 4h, o corpo chegou à sala de velório. Momento duríssimo para todos. Hora de Marcelinho e suas irmãs irem para suas respectivas casas, tomar um banho e se preparar para momentos mais duros ainda, que viriam na manhã e na tarde seguintes. Como a Tia Marisa ficaria sozinha, resolvemos eu, Cris, Anélio e Lucas fazer-lhe companhia até que Marcelinho voltasse. E assim foi. Por volta de 6h30min, eu e Cris voltamos para casa. Dormi um pouco e retornei às 9h30min. Ao contrário da madrugada, quando poucos já sabiam da notícia, o lugar estava apinhado de gente. Parentes, amigos, amigos dos filhos, funcionários do São Paulo, dirigentes, adversários na política do clube, ex-presidentes, prefeito, ministro, torcedores paramentados com uniforme tricolor, enfim, centenas de pessoas acorriam para dar um último adeus ao Dr. Marcelo, numa prova inconteste do carinho e do respeito de que ele desfrutava entre aqueles com quem convivera.
IV
Pouco antes das 15h, o féretro foi retirado da sala de velório e carregado até o carro funerário. O cortejo em direção ao cemitério e o enterro foram momentos carregados de um simbolismo emocionante: era simplesmente impossível não considerar uma homenagem divina a presença das dezenas de carros e ônibus que percorriam a Av. Paulista, a Av. Dr. Arnaldo e a R. Cardeal Arcoverde lotados de torcedores do São Paulo, exibindo, eufóricos, camisas e bandeiras do clube. Fogos espoucavam a todo instante, prenunciando mais uma conquista. As pessoas dentro daqueles veículos, quase certamente, não se deram conta de que no cortejo fúnebre seguia, em direção à eternidade, o maior responsável pela retomada da fase de glórias por que tem passado o clube desde 2005. Como alguns diretores declararam à imprensa, quis Deus que o Dr. Marcelo já tivesse a oportunidade de assistir, de sua nova morada, ao título brasileiro de 2008.
V
Após o enterro, eu e várias outras pessoas fomos assistir, na casa do Marcelinho, à partida entre São Paulo e Fluminense. Embora alguns não fossem são paulinos e outros nem acompanhassem futebol, todos estavam ali movidos por um sentimento mais nobre: confortar um amigo na hora mais difícil de sua vida.
Quando adentrei o apartamento, a cena vivida exatamente uma semana antes se repetiu. Correspondências, jornais e revistas sobre a bancada; mesa de trabalho cheia de papéis, documentos e contas. Naquele instante, senti um baque. Uma tristeza profunda. Daquelas que não se externam com lágrimas em profusão, mas calam fundo na alma.
O jogo começa. O São Paulo está apático. Joga mal. A festa preparada e o clima de título incensado durante a semana não se consumam. Gol do Fluminense. Tensão. Empatamos. Acertamos uma cabeçada na trave. O juiz apita. Um a um. A decisão ficou para o domingo seguinte. Menos mal, pensei. Afinal, uma data tão triste para a coletividade tricolor não merecia ser subitamente convertida em momento de júbilo, êxtase e glória. Melhor seria esperar mais sete dias.
Mas o futebol, naquele 30/11/08, era algo totalmente acessório. Duro, muito duro, duríssimo foi ter a certeza de que o destinatário das correspondências não iria abri-las, a papelada permaneceria sobre a mesa, os gritos de gol antecipados não seriam alvo de bem humoradas reclamações e os comentários pós-jogo não seriam feitos. Entretanto, apesar da tristeza, desci o elevador e entrei no carro apegando-me a um pensamento positivo: o Dr. Marcelo deve ter ficado feliz com muitas coisas que viu, lá de onde já está, no velório e no enterro. E uma delas — não tenho dúvidas —, foi ter tido a prova de que a lição transmitida ao Marcelinho em vida foi perfeitamente assimilada. Não foi por obra do acaso que meu amigo conquistou a sincera amizade de tantas pessoas à sua volta. O Dr. Marcelo deu o exemplo, e o Marcelinho, para alegria dele, já o está reproduzindo, e vai reproduzir ainda mais. Descanse em paz, Presidente. Seu legado está assegurado.
Rodrigo J. O. Pinto de Campos ("Rodrigão"), SP, dezembro/08
e-mail do autor: [email protected]