A gente vem não sei de onde, passa por aqui, e vai pra não sei aonde! E também diz um velho ditado, que "a vida é como tocar violino, sem saber, a gente vai tocando, tocando, tocando até que quase sem perceber vai aprendendo”.
Não me envergonho em talvez parecer repetitivo e sempre que tenho uma oportunidade declaro meu amor pelo meu velho e querido Braz, pois aproveitando os "ditos populares" acima, sei de onde vim, sei por onde passei, ainda não sei pra onde vou, mas certamente aprendi a viver lá, no meu velho e querido Braz.
Foi lá, por exemplo, que tive a feliz oportunidade de estudar no "Romão Puigari", que tinha até merenda na minha época (se bem que a mamma me preparava uns belo sandubas de: mortadella, catalogna à alho e olio, tomate com azeite e oregano, pizza amanhecida), etc. etc.
Tinha dentista, sabe lá o que é isto? Dentista? A cada três meses vinha uma equipe de médicos, médicos eu disse! Dentre outras coisas, tiravam chapa dos pulmões e nos davam certificados de abreugrafia, faziam alguns exames, tomávamos algumas vacinas etc.
Tínhamos um recreio, em que podíamos jogar bola, brincar de esconde-esconde, pega-pega, cabra-cega, e todas aquelas tradicionais atividades durante o recreio.
Íamos para a escola a pé, sim, andando, e voltávamos da escola a pé, sim, andando, só que a diferença estava justamente aí, conhecíamos todos os moradores, comerciantes, ambulantes, e, durante este percurso de volta, compartilhávamos da vida pungente de nosso querido bairro, e, entre um papo e outro, surgiam as idéias do que faríamos no período da tarde.
Chegávamos em casa, guardávamos o material escolar, lavávamos as mãos e almoçávamos. Logo após (no meu caso), subia, trocava de roupa, calçava um "quedis", pegava meu "kit rua" que se constituía em um estilingue, um saco de bolinhas de gude, um monte de figurinhas, e ia para o mundo maravilhoso e encantador que era a rua.
Imaginem, eu, com mais ou menos uns nove anos de idade, livre e solto nas ruas do Braz, a maioria dos meus "companheiros" naquela época moravam por perto, brincávamos muito na Rua Flora, lá morava minha saudosa tia Ida, e meus primos faziam parte da minha turma.
Esta história começa aqui, Rua Flora, altura do número 40, lá existia um depósito de um certo laboratório, e neste dia estavam mudando, e nós, meninos, brincando de "paio o chumbo", uma brincadeira que consistia em duas turmas de mais ou menos cinco a oito integrantes, que ficavam cada uma em um lado da rua, e o objetivo era formar um tipo de coluna humana com os integrantes apoiados uns atrás dos outros, sendo que sempre o primeiro apoiava-se na parede, e cada integrante da turma do outro lado tinha que correr e pular o mais próximo possível da parede, para dar espaço ao que viria a seguir, e quando todos estavam em cima da tal coluna, esta balançava durante um pré-determinado tempo, e se não caísse nenhum integrante da equipe que estava em cima, esta seria a vencedora. Ufa! Um detalhe: durante os pulos, os que estavam apoiados não podiam deixar desabar a coluna.
De repente, paramos de brincar para atendermos a solicitação de um funcionário do laboratório, ele nos pediu ajuda na mudança em troca de uns doces e uns refrigerantes. Imediatamente nos colocamos à disposição para tal intento.
Entravamos no depósito, pegávamos alguma caixa e levávamos até o caminhão que estava fazendo a mudança. Eu, de vez em quando, me abaixava e pegava uma espécie de balinha azul solta no chão do depósito e colocava na boca e chupava até acabar o doce, e às vezes engolia. Isso durou mais ou menos umas duas horas, finalmente acabou a mudança, comemos os doces e tomamos os refrigerantes, quando, de repente, desmaiei.
Fui levado imediatamente ao pronto socorro São Vicente, na Rua Piratininga, e atendido pelo também saudoso Dr. Osvaldo Boccalini, estava em estado de coma. Meu pai, desesperado. Não sabiam o que havia ocorrido, já se falava em transporte para o Hospital das Clínicas, uma verdadeira tragédia, os médicos faziam de tudo para salvar-me, quando a notícia se espalhou, começaram as suposições, será que o que ele comeu estava estragado? Será que ele sofria de alguma doença grave? Minha mãe começou a reconstituir os meus passos após ter saído de casa e começou a perguntar a todos os meus amigos o que teria acontecido, quando, de repente, minha tia foi correndo até minha mãe e disse que o "Cabucchio" (Cabeção, meu também saudoso amigo) havia contado a ela que, durante a mudança que ajudamos a fazer, eu sempre estava com algum comprimido na boca.
Bem, daí não preciso dizer mais nada, descobriram qual era ou quais eram os comprimidos que tomei, me fizeram uma lavagem estomacal e o "Wilson Roberto Fiorante" (o Cabucchio) simplesmente salvou minha vida.
Aprendi que não se come nada sem saber o que é.
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