Resolvi sair observando as transformações da cidade de São Paulo ao meu redor, como um *flâneur, sem compromisso nem destino definido.
Entrei em ônibus lotado, de pessoas que tinham compromisso. Saltei na Avenida Nações Unidas, que popularmente falamos Marginal. Entrei no primeiro trem que se aproximou da estação vindo de Grajaú para Osasco, estava apinhado, espremido, recordei quando trabalhava na Vila Anastácio, Lapa, na SOFUNGE, poucos usavam este meio de transporte, e também não havia tantas estações.
Apeei, como diz o bom caipira, na Cidade Jardim, e "dou de cara" com a destruição engendrada pelo capitalismo, pela força imobiliária do espaço atualmente denominado nobre, mas que não tinha esta denominação, nos baixios do Rio Pinheiros, antiga separação da cidade, que "odoriza" seu perfume inalado pela cidade, à noite e bem perceptível.
Mais à frente várias casas, de telhados quatro águas, foram tombados, não pelo patrimônio histórico, mas tombado mesmo, jogado ao chão sem cerimônia nem choro. Parece que nunca existiu nada antes de estar fixado o presente, e as futuras gerações somente irão saber por meio dos livros de academias.
A Casa Bandeirista, no Itaim Bibi, é exemplo típico do descaso ao patrimônio público, entre a Rua Iguatemi e Avenida Faria Lima, atualmente só há escombros, e não faltou luta. Faltou intervenção das autoridades, pois o setor imobiliário cobiça o local como uma das áreas mais valorizadas de São Paulo.
Enfiei-me num outro ônibus biarticulado, que, na periferia, o povo chama de "sanfonão", sabedoria do conhecimento popular maior do que qualquer técnico de tráfego. Na altura do número 4.000 da Avenida Nove de Julho e próximo à esquina com a Avenida Brasil, algumas casas, que um dia abrigaram o "subúrbio" da cidade de São Paulo, já não suportam esta expansão bárbara. Aquilo que foi um dia residência de operários da tardia industrialização é destruído, dando lugar à verticalização.
Sempre tenho dificuldade em saber a diferença entre subúrbio e periferia. Um dia encontrarei o limite desta linha tênue de separação de fronteira, e se ainda existe na cidade de São Paulo.
Passei pelo Viaduto Nove de Julho, que quiseram apagar da história mudando seu nome. Saltei para subir em direção ao Bixiga, onde o pai sempre lembrava da "parrocchia" Nossa Senhora Achiropita. Não fui do lado da Rua São Vicente, próximo à quadra da Escola de Samba Vai-Vai, mas subi a Rua Rocha, indo "pros" lados do Morro dos Ingleses, expressão usada pelos antigos, pois falavam haver ali uma colônia deles.
Minha mente de criança registrou aquilo que neste momento eram recordações, parando na Rua Itapeva, onde morava o tio Vito e a tia Nica, com as filhas Neuza e Neide, e onde meu pai fazia questão em ir, talvez a saborear uma pasta, um belo "espaguetti", que eu nunca sabia o porquê de não se poder cortar com a faca. Por falta de experiência, sempre melecava minha "roupa domingueira" com pomarola.
Essa italianada, "oriundi", ria e se divertia a contar "causos", que às vezes eu achava não serem verdadeiros, mas que eram contados com tanta naturalidade que quem era eu para desmentir tamanha sabedoria.
Expuseram, certa vez, como meu bisavô Luigi chegou pelo vapor Santa Fé, em 1891, vindo do porto de Gênova, e aqui parte da família foi separada, indo uns para os lados de Minas Gerais e outros para o Paraná, de onde originou nosso ramo familiar.
O velho Luigi deveria ser daqueles anarquistas ferrenhos e não concordou em trabalhar somente por moradia e comida. Atravessou a "fronteira" passando por Catanduva, depois Taquaritinga, onde nasceu meu pai, Ernesto, e depois na década de 40, rumaram para a cidade grande, São Paulo.
O tio Vito, morou no Tucuruvi, e veio com a tia Nica mais tarde "pro" Bixiga, que ela insistia em registrar como Bela Vista. Ele era tio de meu pai, irmão da minha avó Maria Italiana, foi morar num apartamento bonito, e perto das imediações da Rua Itapeva montou um açougue.
Faltava espaço de um quintal, como havia no Tucuruvi, onde ele possuía um viveiro de pássaros. Ele tentou manter alguns, mas alguém gravou a "conversa" dos pássaros e entregaram o tio no condomínio, ele ficou triste e acabou com tudo.
A cidade não tinha espaço nem pro tio Vito nem "pros" pássaros, e eles partiram voando para o céu. Na sua despedida estava presente o Zé Italiano, que também era sobrinho dele, e que foi um grande comentarista da crítica esportiva da Gazeta.
Tia Nica era de baixa estatura, "piccola donna", tinha um sorriso maroto, a conversar deliciosamente de fatos que só os daquela "lorota" estavam habilitados a entender.
Com a partida do tio Vito, as duas irmãs resolveram que a mãe iria conviver com elas. Um dia esse anjo bateu asas e partiu para os céus ao encontro do tio Vito.
Saiu da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo fazendo o caminho para o interior, em São Carlos do Pinhal, que até não possui mais pinhal no nome, talvez pelo desmatamento, ou talvez por conta do mal-educado progresso que chega sem pedir licença.
Segui pela Rua Rio Claro, onde ainda existe uma feira livre aos sábados. Deparei-me com o passado portentoso do Hospital Matarazzo, também chamado Humberto Primo. A cor amarela escura está desbotada do tempo, a capela está trancada, talvez até Deus precisasse sair para dar lugar ao estacionamento que hoje ocupa o lugar. As grades estão entabuladas com placas de madeira, olhei pela fresta e deparo com a estátua do Conde, meio tristonha, olhando de lado, como a contemplar momentos gloriosos das Empresas Reunidas Matarazzo, importante para a industrialização de São Paulo.
O império que foi pioneiro deste desenvolvimento desmoronou com a casa da família na Avenida Paulista, que da noite para o dia foi demolida, em novembro de 1980, sem tempo de ser requerida pelo tombamento histórico, tombou de verdade, numa das mais valorizadas áreas para empreendimento imobiliário. Cumpre no hodierno um papel secundário, tornando-se estacionamento de automóveis que lotam diariamente esta grande metrópole.
Da Rua Rio Claro, contornei o hospital descendo pela Itapeva retornando pela Rua Rocha, parando no farol próximo a Praça 14 Bis, onde havia um avião Senta Pua, da Segunda Grande Guerra, um P-47 Thunderbolt, cadê o avião? Uma praça que reverencia um momento histórico sem representação!
Cansei de procurar vestígios arqueológicos pela cidade, subo o viaduto, retorno em sentido a Santo Amaro. Periferia não tem monumento! Caramba "tinha" sim! Quando era criança, aos domingos, um bando de andarilhos se dirigia para a Represa do Guarapiranga, na Avenida De Pinedo, onde uma portentosa estátua do Ícaro, um homem alado, representava a Primeira Travessia do Atlântico. Levaram-na embora; "mora" hoje na Praça Adolfo Bloch, entre a Colômbia e Brasil, nações unidas que receberam o monumento da periferia, que não possui margens de água para descer o Jahú do comandante João Ribeiro de Barros, nem o Santa Maria, de Francesco De Pinedo, da Academia Real Naval da Itália, ambos hidroaviões Savoia Marchetti S 55. Hoje o Jahú está sob custódia do Museu Asas de um Sonho, Fundação EDUCTAM, São Carlos.
Quando desci do ônibus sanfona articulado, um menino da periferia entregou-me um folheto de lançamentos de empreendimentos imobiliários do Morumbi e Panambi, com parques e academias anexadas à arquitetura. Parece outro mundo, obras das mais renomadas empreiteiras da construção civil, mas os preços não são compatíveis com lado desta fronteira.
São Paulo, e inexplicavelmente destruída constantemente em nome de si própria. Não comporta mais o desenvolvimento industrial que a fez grande, e agora ela está desindustrializando-se no século 21.
* flâneur: observador e experimentador errante, apreciador da imagem apropriada, a imagem mental e material. Assim já não trabalha no tempo cronológico, mas no tempo do aprimoramento, escolhendo como seu domicílio a multidão. Estar fora de casa e, no entanto, se sentir em casa, em toda parte, toscamente. (Baudelaire)
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