Tem uma marca de sabão em pó que sempre esteve presente em minha vida, desde muito cedo, antes mesmo que eu soubesse ler. Eu sabia que aquela caixa com cores vibrantes azul e vermelho, com apenas três enormes letras no rótulo, era de uso essencial em nossa casa.
Sempre observei minha mãe nos seus afazeres e o cuidado com nossas roupas. Lógico que a responsabilidade pela impecabilidade de nossas roupas era 99,9% da minha querida progenitora, pois não possuíamos a máquina de lavar roupa e, assim sendo, era o tanque e o muque de minha mãe que faziam o serviço.
Foi um fato ocorrido nos início dos anos 70, envolvendo minha irmã, um vestido e o sabão supra citado, que fez com que a minha admiração por aquele sabão tomasse proporções homéricas.
Minha irmã, com a idade de nove anos, havia ganhado de aniversário um vestido cor-de-rosa com detalhes em xadrez, sobre o qual minha mãe logo a alertou que seria para ser usado só em ocasiões especiais. Nas próprias palavras dela: "Nao é pra sair brincando por aí com este vestido!!!”.
Numa das ausências de minha mãe (pois ela trabalhava fora na época), minha querida irmãzinha, querendo se mostrar para as coleguinhas, não teve dúvida: colocou o vestido e foi exibi-lo. Ela foi até um campinho que havia em frente de onde morávamos, no bairro do Limão, local hoje onde foi construído o condomínio Ilhas Gregas.
Bom, não precisa dizer que em cinco minutos a recomendação de minha mãe havia se esvaído entre brincadeiras de corre-corre, pular e cair. O resultado foi um vestido arruinado, totalmente sujo e a certeza de uma tamanha bronca de minha mãe.
Ela entrou beiçuda e quase chorando, pedindo para que eu não contasse o fato pra nossa mãe. Mas o que fazer com o vestido??? Logo lembrei que o sabão de caixa colorida podia nos ajudar, pois o slogan que passava na TV era "Onde o *** cai, a sujeira sai".
Assim sendo, como cúmplice e assistente nesta façanha, iniciamos a lavagem do tal vestido. Colocamos o sabão e água num balde e o vestido imerso, conforme eu já havia observado minha mãe e na propaganda por tantas vezes. Deixamo-lo de molho e o vestido foi "voltando ao seu estado normal": as cores amarronzadas do barro haviam desaparecido e a cor rosa colocou de volta o sorriso em nossos rostos.
Bom, se não fosse um porém: a quantidade de sabão que colocamos foi maior do que se precisava, quase meia caixa, o que fez com que passássemos quase umas duas horas tentando retirar o excesso da espuma que não parava de formar.
Enfim, pelo avançado da hora, decidimos parar de enxaguá-lo e estendê-lo no varal. E observávamos, ansiosas, os ponteiros do relógio, aguardando que o vestido secasse antes de minha mãe voltar.
Quando seco, qual não foi a surpresa, o vestido estava endurecido de tanto sabão, parecia uma tábua. Enfim, colocamos de volta no cabide do jeito que estava, rezando para que nossa mãe não percebesse. Ela não deu conta do acontecido.
Aliviadas, no dia seguinte, assim que ela saiu pra trabalhar, começamos a labuta de novo, para retirar o sabão do vestido.
Bom, depois de uns dois dias de árduo trabalho, o vestido voltou a sua textura normal. Estávamos salvas de mais um sermão.
Hoje, uns trinta anos depois, faço esta confissão, pois minha mãe até hoje não sabe desta história, ou pelo menos finge que não sabe!
O sabão que teve participação especial nesta façanha tem na abreviatura o significado “Old Mother Owl”, que, traduzindo, “velha mãe coruja”, num simbolismo ao zelo materno.
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